Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Crónicas, contos e confissões de uma solteira gira e bem resolvida que não cumpriu o papel para o qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar pulos de alegria? Provavelmente, nem uma coisa nem outra!

20
Mai22

A inflação da sexualidade

por Sara Sarowsky

green-g26187395a_1920.jpg
Ora viva! ✌️ 

Depois de dois posts "escaldantes" 🥵, hoje trago algo mais light, se bem que o tema gira igualmente à volta da sexualidade, ainda que em moldes mais teóricos. Uma reflexão - muito pertinente, se queres que te diga - sobre o quão "banalizada" está a ser a sexualidade nos dias que correm pareceu-me uma ótima maneira de encerrarmos esta semana com chave de ouro.

Da autoria do jurista Sandro Alex Simões, para o Observador, em 9 de maio deste ano, a crónica que vou partilhar a seguir dá-nos que pensar, já que, de uma forma ou de outra, estamos todos a contribuir para o fenómeno sobre o qual reflete ele. De modo a encurtar o texto, que hoje é sexta-feira e ninguém está para grandes leituras, citarei apenas os trechos que considero relevante para este blog. Caso seja do teu interesse, este link dar te á acesso à crónica original.

Numa conferência proferida em 1974 no Lindenthal-Institut de Colónia, Viktor Frankl (1905-1997), um dos mais influentes pensadores do século XX, trouxe à baila a questão da inflação da sexualidade. De acordo com este psicanalista e filósofo austríaco, "na falta de um sentido que satisfaça a sua sede, a vontade irresistível do homem de significar a si mesmo e a sua vida, procura-se a fuga pelo prazer", escreve Sandro Simões.

Como tal, "a inflação da sexualidade é um escapismo e, como de resto com todas as ilusões, não apenas é incapaz de dar um sentido satisfatório ao que procuramos, mas ainda cria distorções na própria sexualidade. O Dr. Frankl referia na conferência a sua convicção de que 90% a 95% das disfunções de potência ou orgasmo devem-se à veneração do prazer, a hiper-intenção. Isto é, quanto mais se busca o prazer pelo prazer, menos prazer se obtém. Isso porque a inflação da sexualidade é essencialmente uma desvalorização da sexualidade, sua banalização.

A pornografia, nessa linha, e toda a indústria bilionária que a promove, é um exemplo do problema. Nela a sexualidade humana é uma mercadoria de montras e não leva ao autoconhecimento ou à valorização do prazer ou do corpo. Ao contrário disso, trata-se de transformar tudo em preço e mercado. E é de se notar, senão de se estranhar, tal como indica o Dr. Frankl na sua conferência, que uma juventude tão informada, tão crítica e atenta, não proteste e não perceba que na indústria pornográfica se encontra uma das formas mais vis e cruéis de exploração do homem pelo homem, o capitalismo em uma das suas versões mais brutais de objetificação da vida.

Contudo, se em relação à depressão, à agressividade e violência e à adição já se notam crescentes preocupações sociais e iniciativas governamentais e não-governamentais de sensibilização e atendimento, tal como a que se vê em relação à saúde mental, quanto à pornografia parece ser o contrário, ou seja, a tolerância, senão sua promoção social e mediática sob uma certa aura de progressismo e libertação das amarras do moralismo.

Este é um assunto que, decerto merece ser tratado em mais espaço de modo a explorar os seus contornos devidamente, porém, para os fins do presente texto basta-nos chamar a atenção para o que está por baixo do tapete nessa abordagem, por assim dizer. Devemos a nós mesmos, senão por outro relevante motivo, pelo menos em nome da tão preciosa razão crítica dos nossos tempos, a pergunta sobre as razões dessa inflação da sexualidade e o que isso nos traz de bem. Se percebemos os seus efeitos e as relações que possui com os outros sintomas perniciosos e perigosos da depressão, da agressividade e das adições para os quais parecemos estar mais atentos.

Deixo-te, com a promessa de estar de volta na segunda-feira. Fica com aquele abraço amigo e desejos de um ótimo fim de semana! 🫶

Autoria e outros dados (tags, etc)

woman-g7b1c42229_1920.jpg
Ora viva! ✌️ 

Um dos motivos na base do inexpressivo sucesso do meu trabalho (como blogger, cronista, autora e ativista) nas redes sociais prende-se com a incipiente exposição da minha vida pessoal. Mesmo ciente de que o talento (já) não é suficiente para se angariar uma legião de fãs, continuo de todo reticente em explorar a minha intimidade em nome de "likes", não obstante partilhar grande parte dela nos meus escritos.

Uma hora ou outra, baixa em mim o espírito "Kardashian" e lá publico um ou outro conteúdo mais íntimo, apenas porque me deu na real gana e não porque conto aumentar o número de seguidores ou gerar burburinho. Faço questão de angariar admiradores pela excelência e coerência do que faço e não por outra coisa qualquer.

Atenção, não estou a criticar quem adota outra postura, apenas a deixar bem claro que a minha recusa em postar "caras, bocas e carnes" prende-se com o facto de não me identificar de todo com esse tipo de exposição, por mais que reconheça a sua eficácia na conquista de likes, logo na hipótese de se ganhar dinheiro com publicações pagas. 

Ainda em relação à exposição da minha vida privada, mais fácil é eu partilhar o que de mau me acontece do que o contrário. As frustrações, amarguras e provações divido-as com quem estiver à mão, já que "tristeza dividida é meia tristeza". No que toca à felicidade, apesar de se apregoar que "alegria dividida é alegria a dobrar", a minha postura é precisamente inversa. Há muito que aprendi que estarmos bem incomoda muita gente, inclusive pessoas bem próximas de nós. 

Há muito que a sabedoria popular alertou para não gritarmos a nossa felicidade, já que a inveja tem sono leve. É neste sentido que hoje quero partilhar contigo um texto datado de outubro de 2016, e cujo tema, volvidos mais de cinco anos da sua publicação no site Já Foste, continua surpreendentemente atual: a inveja que a nossa felicidade pode despoletar nos outros. 

Visto que o referido site não permite o copy-paste dos seus conteúdos, este link dar te á acesso ao post Quanto menos pessoas souberem, mais feliz tu serás, da autoria de Marcel Camargo, através do qual fica claro que sermos discretos em relação à nossa felicidade é a postura mais adequada para preservarmos a nossa sanidade emocional e espiritual.

Meu bem, despeço-me com aquele abraço amigo de sempre e um "até quarta"!

Autoria e outros dados (tags, etc)

04
Fev22

Escolhe ser feliz!

por Sara Sarowsky

19233422_sNEuS.jpeg
Ora viva! 🌷

Numa formação desde as dez da manhã, hoje só arranjo criatividade e energia para requentar um texto resgatado dos primóridos deste blog. Originalmente publicado a 5 de fevereiro de 2016, já lá vão seis anos, este recai sobre as escolhas que fazemos - ou não - rumo a uma existência mais feliz. Boa leitura, mais importante do que isso, boa reflexão sobre as escolhas que tens feito na tua vida.

Quantas e quantas vezes não desperdiçamos nós tempo, paciência, expectativas e emoções com coisas e pessoas que não contribuem em nada para a nossa felicidade. Verdade?

Porque merecemos ser felizes, hoje escrevo sobre algumas atitudes que, por minarem o nosso bem-estar físico, emocional e psíquico, urgem serem banidas do nosso dia a dia. Por ora lembro-me destas cinco, mas caso me venha à memória outras, conta com um novo artigo sobre o assunto.

Viver em função dos outros
Ser algo que não somos - nem é suposto sermos - é uma tarefa não só frustrante como cansativa. Aceitarmo-nos tal como somos e aprendermos a valorizar as nossas qualidades e a conviver com os defeitos é mais do que suficiente para estarmos em paz connosco e com os que nos rodeiam. E um dos maiores atestados de maturidade e amor-próprio. Das poucas vezes que tentei fintar a minha natureza, mascarando a minha essência, na tentativa inglória de agradar ou ser melhor aceite pelos outros, a coisa não correu bem. Pudera! Cada um é como é. Quem gosta, convive. Quem não gosta, dá meia volta e vai à sua vida.

Temer as mudanças
"Para melhor, muda-se sempre!", ainda que isso implique deixarmos a nossa zona de conforto e assumirmos riscos. Entre rejeitar ou abraçar a mudança, mais vale optar pela segunda, já que a primeira vai deixar a nossa vida estagnada, presa à rotina, impedindo-nos de saber o que isso poderia fazer à nossa vida. Não devemos ter medo de abraçar coisas, pessoas, trabalhos, projetos, desafios ou amores novos. O bom da novidade é que a probabilidade de sermos surpreendidos pela positiva é infinitamente maior.

Deixar-se levar pelas aparências
Julgar os outros, ainda que inconsciente e involuntariamente, é prática comum a quase todos nós, já que fomos formatados para seguirmos os rótulos pré-estabelecidos pela sociedade. Apesar de eu não sofrer desse mal (pelo contrário), estou ciente de que nem toda a gente consegue libertar-se desse espartilho. Se fores como eu, uma eterna inconformada, deves saber que o segredo para não se vergar àquilo que os outros consideram "socialmente desejável" consiste numa mente aberta, numa escuta ativa (vocábulo adquirido nas entrevistas para call centers) e em aprender a aceitar, ou pelo menos respeitar, a diferença.

Deixar-se levar pelo medo
Medo do desconhecido, medo de arriscar, medo de dar o próximo passo, medo de falhar, medo de ser criticado... Enfim… muitos de nós, deixamo-nos aprisionar por todos estes medos, ao ponto de nem sequer tentarmos (como sei disso). Dado que este, muitas vezes, é um estado psicológico, para seguirmos em frente só temos que libertar-nos dele. Por mais que nos custe!

Inventar desculpas
A desculpa, uma preciosa aliada em determinados momentos pode revelar-se um implacável inimigo noutros, impedindo-nos de partir à conquista de quem ou daquilo que desejamos. Nessa matéria sou uma pro, já que passei a minha vida toda a inventar desculpas para não correr atrás dos meus sonhos. Agora que esgotei todo o stock de desculpas, só me resta ir à luta e fazer por acontecer.

Aquele abraço amigo de bom fim de semana!

Autoria e outros dados (tags, etc)

31
Jan22

Esperem sentados (reprise)

por Sara Sarowsky

people-g9ceeab980_1920.jpg
Ora viva! ✌️ 

A rescaldar das legislativas de ontem, e profundamente orgulhosa do facto de o meu #votonegro ter contado, para hoje proponho lançarmos um olhar a este texto da jornalista Rita Marrafa de Carvalho sobre o papel da mulher na sociedade atual, originalmente publicado em janeiro de 2016, tinha este blog poucos meses de vida.

Esperem sentados
Que cases. Que te juntes numa cerimónia branca e imaculada, rodeada de família e amigos. Que tenhas filhos depois. Só depois. Esperam de ti, mulher, que saibas, no mínimo, estrelar ovos e que gostes de homens. Mas que sejas fiel. Ordeira e arrumada. Limpa e asseada. E que dês de mamar. Que sejas incansável na função de mãe, sem lágrimas ou dúvidas. Mãe que é mãe nunca se arrepende de nada. Nem de os ter. Nem do que faz. Nunca questiona os conselhos dos mais velhos.

Esperam de ti isso e mais. Que qualquer sensação de fraqueza é para erradicar do peito e da cabeça. Esperam que se te dizem que deves dar peito até aos dois anos, é para cumprir. Que se não sentes qualquer gozo nisso, és menos mãe. Menos capaz. Menos mulher. Esperam de ti um parto normal. Gaja que é gaja, tem parto vaginal. As outras são umas "meninas". Esperam de ti a boçalidade da pré-história.

Esperam que tenhas os filhos sempre limpos e que lhes dês banho todos os dias, após uma refeição sem fritos ou salsichas. Esperam que a roupa do homem com quem casas, porque é suposto gostares de homens, esteja passada a ferro. Que se não podes, contrates alguém.

Esperam que não haja vincos na tua camisola quando vais trabalhar todos os dias nem nódoas de ranho ou papa. Esperam que tires um curso. Que sejas "alguma coisa" mas que consigas ter a casa num brinco, sem pingo de pó ou brinquedos fora do sítio.

Esperam que sejas magra. Atlética. Que corras todos os dias. Ou dia sim, dia não, vá. De depilação feita e unhas coloridas. Que faças bolos ao sábado. E que não tenhas as raízes do cabelo por fazer. Esperam que te comportes bem e que nunca bebas um copo a mais para não caíres em figuras ridículas. Que nunca sejas daquelas que urina entre dois carros, no meio do Cais do Sodré.

Esperam isso. Esperam mais. Que nunca adormeças maquilhada porque sujas a fronha da almofada. E que não te separes. Aguenta. É suposto aguentares porque tudo dá trabalho na vida. Por isso, é suposto esforçares-te. Pelos filhos. Por ti, não. Não carece. Por ti, não. E pela imagem. A imagem. E o que gastaram naquele casamento sumtuoso! Não. Aguenta, se faz favor. Pelos teus pais e pelos teus filhos. Esmera-te. É capaz de ser culpa tua.

Esperam isso de ti. E não convém falhares. Esperam que tenhas sempre a louça na máquina e a roupa estendida. Que a cama esteja sempre feita. Todos os dias. Esperam de ti pouco rasgo. Se pensares demasiado, vais questionar demasiado. Ser curiosa ainda vá. Refletir é evitável. Não esperam que sejas uma grande inteletual ou que fumes charutos ou que gostes de brandy. Vais beber licor de café ou vinho do porto e fumar qualquer coisa com sabor a mentol. Esperam de ti a dignidade. Que aceites o assédio como um galanteio. Esperam que uses saltos altos todos os dias e que uses um perfume que enche o elevador. Esperam que sejas isto. E mais. Só não esperam que sejas feliz.

Sobre o resultado das eleições, históricas em vários aspetos, falarei noutra altura, que hoje é dia de celebrar e perspetivar dias mais estáveis para o país. Que a tua semana seja tão boa quanto a tua energia!

Autoria e outros dados (tags, etc)

05
Jan22

team-g37abfe9c2_1920.jpg
Ora viva! 💫

Um novo ano chegou, e com ele inúmeras resoluções, todas no sentido de experienciarmos uma vida mais plena e feliz. Num período tão conturbado da história da humanidade, em que somos incessante e implacavelmente fustigados por desafios que despertam em nós sentimentos de impotência e desânimo, o saber estar continua a fazer todo o sentido, mais não seja porque o conhecimento não ocupa espaço.

Algumas regras de etiqueta e (boa) convivência nunca passam de moda, motivo pelo qual escolhi para primeira crónica de 2022 meia centena de regras absolutamente preciosas na interação social e capazes de fazer de ti alguém melhor: melhor profissional, melhor familiar, melhor amigo, melhor vizinha, melhor cidadão, no fundo, melhor ser humano.

Anota aí quais os comportamentos nos quais deves investir daqui para a frente - isso se quiseres fazer de ti alguém que acrescenta valor:
1. Levanta-te sempre que cumprimentares alguém.
2. Numa negociação, nunca faças a primeira oferta.
3. Se te confiarem um segredo, guarda-o.
4. Volta com o tanque cheio do carro que te emprestarem.
5. Faz as coisas com paixão ou não as faças de todo.
6. Quando deres um aperto de mão, fá-lo de modo firme e olhando nos olhos.
7. Vive a experiência de viajar desacompanhado.
8. Nunca rejeites uma pastilha de menta (as razões são óbvias).
9. Aceita dicas se quiseres chegar a velho.
10. Trabalha bem, ao invés de trabalhar muito.
11. Quando escreveres com raiva, lê, apaga e depois escreve de novo.
12. Na mesa, não fales de trabalho, política ou religião.
13. Sê justo, defende aqueles que são abusados sem abusar.
14. Escreve as tuas metas e depois trabalha por elas.
15. Defende o teu ponto de vista sem ofender nem insultar, tolerante e respeitoso perante o alheio.
16. Liga e visita os teus pais, filhos, familiares e amigos, não percas teu tempo esperando que eles façam primeiro.
17. Nunca te arrependas de nada, aprende com tudo.
18. Em momentos ou dias de solidão, relaxa, aproveita e aprende.
19. Honra e lealdade são básicas na tua personalidade.
20. Não emprestes dinheiro a quem sabes que não vai pagar-te.
21. Acredita em algo.
22. De manhã, faz a tua cama ao levantar.
23. Canta no chuveiro.
24. Cuida de uma planta ou jardim.
25. Observa o céu sempre que puderes.
26. Descobre tuas habilidades e aplique-as.
27. Ama o teu trabalho, ou deixa-o.
28. Pede ajuda quando precisares.
29. Ensina um valor a alguém, de preferência a uma criança.
30. Valoriza e agradece a quem te beija a mão.
31. Sê gentil com os teus vizinhos.
32. Torna o dia mais alegre para alguém.
33. Concorre contigo mesmo.
34. Presenteia com algo simbólico uma vez por ano.
35. Cuida da tua saúde.
36. Saudações com um sorriso sempre.
37. Pensa rápido, mas fala devagar.
38. Não fales de boca cheia.
39. Limpa os teus sapatos e corta as tuas unhas.
40. Não opines sobre temas que desconheces.
41. Nunca maltrates um animal.
42. Fala alto diante das injustiças.
43. Nunca percas a maravilhosa oportunidade de ficar calado.
44. Reconhece a alguém o seu esforço.
45. Sê humilde acima de tudo.
46. Nunca esqueças de onde vieste.
47. Viaja sempre que possível.
48. Cede o passo.
49. Dança na chuva.
50. Procura o teu sucesso, sem desistir. 

Meu bem, vai pondo em prática estas dicas enquanto eu vou escrevendo a nova crónica para o Balai Cabo Verde. Cá estarei à tua espera na sexta-feira para mais um papo amigo. Beijo no ombro e boas energias!

Autoria e outros dados (tags, etc)

15
Dez21

woman-g33cbe1226_1920.jpg
Ora viva! 👋

Nos últimos dias, a sociedade cabo-verdiana tem testemunhado a uma inquietante onda de homicídios, com a violência patente em cada um deles. Para além do estupro, e consequente assassinato, de uma menina de 13 anos, cujo corpo foi barbaramente largado num sítio ermo da ilha do Sal, registaram-se ainda dois crimes passionais: uma mulher que matou o companheiro à facada (também na ilha do Sal) e um homem que matou a tiro a companheira (na ilha de Santiago).

Quem me conhece minimamente sabe que não sou apologista de dar tempo de antena a acontecimentos nefastos ao bem-estar mental e emocional. A realidade é suficientemente dura para estar a dar protagonismo ao seu lado perverso. Contudo, volta e meia, abro uma exceção para falar de casos que me tocam particularmente, tamanha a sua relevância para a harmonia social, sobretudo quando põe em xeque a problemática do género.

É à luz desta contextualização que eis-me aqui a partilhar este poderoso desabafo da escritora e ativista social Natacha Magalhães, a propósito dos episódios acima mencionados.

Ontem uma mulher assassinou o marido com uma faca. Hoje um homem (agente policial) mata a esposa com tiros.

Vejo comentários do tipo "até quando?", "quantas mais terão que perder a vida?", "nossa sociedade está doente".

Não. Paremos com isso! Nem toda a sociedade está doente. Não somos todos assim.

O que se passa, nesses casos, é que pessoas estão em relações sem sentido, com medo de ficarem sozinhas ou para darem uma satisfação à sociedade, que aprova mulheres e homens casados (ainda que mal casados) do que solteiros e felizes. Há muita pressa, pouca paciência, muita irracionalidade. E é o que se vê. Quantas/os se submetem a relações infelizes, onde o parceiro não tem nada a ver com a parceira e vice-versa, mas o casal só lá permanece apenas porque um ou ambos não conseguem viver sós? Quantos estão em relações baseadas no sexo e não na amizade, cumplicidade e respeito? Quantas mulheres e homens precisam aprender a amar e respeitar a sua própria pessoa, ao ponto de sair da relação tóxica ou quando as coisas chegam a um ponto que claramente há sinais de desgraça eminente?

O que há nessa sociedade é muita falta de amor, incluindo amor-próprio. Muita falta de cuidar da alma, de cultivar a fé e os valores.

Há autoridade capaz de resolver isso? Não! Essa é a nossa responsabilidade, enquanto pais e educadores. Lá em casa, ensinar as meninas e os meninos a autoestima e auto-respeito, a respeitar o outro, a gerir emoções, a aceitar opiniões contrárias.

Mais amor. Amor-próprio. Amor ao próximo.

Despeço-me com aquele abraço amigo e votos de Boas Festas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

07
Dez21

Laços de família

por Sara Sarowsky

hands-g77d4f9b93_1920.jpg
Ora viva! ✌️

Embalada pelo espírito de Natal que paira no ar e francamente desgastada com as merdices que reinam no seio da minha própria, a crónica de hoje, publicada há pouco no Balai Cabo Verde, pretende lançar um olhar pertinente e acutilante sobre o sentido de família e os laços que a unem. Espero que gostes e que sirva para dares mais valor à tua.

Eis-nos chegados à época do ano em que o seu conceito assume maior protagonismo e a sua essência faz-se presente a cada instante. Mais do que qualquer outro do calendário cristão, este é o mês em que se torna incontornável a fundamentalidade dos laços sobre as quais assenta ela.

A família! Na sua génese, é a primeira certeza de que se pertence a algo, de que se pertence a alguém... Para além disso, é a nossa referência, o nosso porto seguro, o nosso abrigo, o nosso colo amigo, a nossa escola da vida, no fundo, a nossa identidade. Nenhuma instituição assume tão essencial papel na vida do ser humano, para não dizer ser vivo.

Uma pessoa sem família é como uma folha ao vento, que, desamparada, segue desgarrada de tudo, absolutamente à mercê das intempéries da vida. Obviamente, não sou ingénua ao ponto de acreditar que, no seu seio, tudo é um mar de rosas, com todos a amarem-se incondicionalmente e ninguém a desentender-se. Família nenhuma é perfeita, nem é suposto que seja, devemos nós ter a honestidade de reconhecer. Afinal, se os seus membros - que somos todos nós - não são, porque haveria ela de o ser?

Por maior que seja o esforço para fazer com que seja - ou pareça - perfeita, a verdade é que mesmo nos núcleos mais unidos, ocorrem momentos de rivalidade, tensão, desavença, discordância, intriga, conflito mesmo. A mim não me choca tal realidade, acho até saudável. O que me choca é a constatação de que alguns dos seus elementos deixam as emoções (negativas) falarem mais alto do que os laços que os unem.

Fico de coração partido toda vez que tomo conhecimento de casos de parentes que deixam de se dar por motivos que, mais cedo ou mais tarde, chega-se à conclusão que não passam de desimportâncias. Na necessidade, quem é que está lá para nós? Na desgraça, quem é que nos ampara? Na doença, quem é a primeira a acudir? Na morte, quem é que nos empresta aquele ombro amigo? Na aflição, a quem recorremos? Por sentido de dever ou genuíno bem querer, o facto é que é com ela que podemos (realmente) contar.

Imensamente abençoados são aqueles que podem desfrutar de um agregado familiar onde imperam verdadeiros laços fraternais. É assustadora a quantidade de almas perdidas que acreditam não precisar da família, demonstrando não apreciar o seu valor na definição, preservação e elevação do bem-estar geral, aquilo a que vulgarmente chamamos de felicidade. Aonde não reina o bem querer, o respeito, a lealdade, a solidariedade, a compaixão, a tolerância, a harmonia e a união não pode reinar o sentido de família.

Nesta quadra festiva, peço-vos que valorizem a vossa família, que tenham mais paciência, que demonstrem mais condescendência, que sintam mais compaixão e que cultivem verdadeiros laços de ternura com os vossos. A vida é tão instável, tão imprevisível, tão efémera, pelo que quezílias que em nada contribuem para a nossa felicidade, para o bem-estar social, são pura perda de tempo e de energia.

Estreitemos, pois, os laços com os nossos entes, perdoemos o que tiver que ser perdoado, esqueçamos o que devemos esquecer, resolvamos o que nos for possível resolver, aceitemos o que tiver que ser aceite, deixemos para lá o que deve ser deixado para lá. Antes isso do que ficarmos no lamento, no arrependimento, na culpa, na saudade...

Vamos sempre a tempo de estabelecer, investir, estreitar e resgatar os nossos laços de família. De coração, com coração, voltemo-nos para a nossa família, seja ela unida por laços de sangue ou por laços de amor, o maior presente que podemos dar e receber. Amemos, abracemos, perdoemos, desfrutemos, vivamos. Sejamos família!

Aquele abraço amigo e até breve!

Autoria e outros dados (tags, etc)

15
Out21

O poder do poder

por Sara Sarowsky

violence-2985520_1920.jpgOra viva! ✌️ 

Em modo filosofia, hoje acordei a pensar no poder, mais concretamente na sua importância para o ser humano. Que fique bem claro que quando me refiro ao poder não estou a falar de força de vontade, mas sim de vontade à força. De acordo com a Wikipedia, o poder define-se, geralmente, como a habilidade de impor a sua vontade sobre os outros, mesmo se estes resistirem de alguma maneira.

O que mais abunda por este planeta azul são criaturas obcecadas com poder, ao ponto de, na sua busca desenfreada, atentarem contra a vida e a dignidade alheias, sem escrúpulos nem remorsos. Falando por mim, a maioria daquelas com as quais tenho a oportunidade - ou o azar - de privar consideram (erroneamente, claro) que este consiste em dar ordens, incutir temor ou exigir respeito. Não é à toa que sentencia o ditado: "se queres conhecer uma pessoa, dá-lhe poder!"

Na minha forma de ver as coisas, o (verdadeiro) poder consiste em inspirar pessoas, influenciar decisões, mudar vidas e transformar mentes. Daí que o considere acima de um cargo, um título, um status, uma conta bancária ou uma crença. E tu, meu bem, alguma vez te questionaste sobre o poder do poder na tua vida? Se sim, importas-te de partilhar comigo o teu ponto de vista?

Agora que está dado o recado, vou bazar que muito trabalho me aguarda - sim, estou ciente de que já passam das sete da noite de uma sexta-feira, mas vida de profissional (muitas vezes) tem destas coisas. Sei que foi curta a minha passagem aqui hoje, mas prometo voltar na segunda, inspirada e revigorada, para mais uma conversa amiga.

Aquele abraço de bom fim de semana!

Autoria e outros dados (tags, etc)

4DA4D498-9F5E-4AD3-9A3D-D03A5222E1F4.jpegOra viva! 👋

Enquanto "desencardidora de mentes", é meu dever dar um contributo ativo para a desmistificação de questões "sensíveis" à condição feminina, em especial à mulher solteira e à mulher negra. Uma dessas questões prende-se precisamente com a forma como os "não negros" se dirigem ou referem a nós.

No universo feminino, que é onde estou confortável para opinar, tal acontece com uma frequência indesejável nos dias que correm. Dois milénios e duas décadas depois de Cristo, continuamos a levar com pseudoelogios que em nada abonam a nosso favor, muito pelo contrário. Acredito que a maioria daqueles que os proferem fazem-no na crença de que estão a enaltecer-nos, quando na verdade estão é a desmerecer-nos.

Porque ofensa é ofensa, seja ela provida (ou não) de intenção, é preciso expor a situação, trazer à baila o tema, de modo a alertar os incautos para terem cuidado, de modo a não ferir suscetibilidade nem cair no erro de perpetuar estereótipos que contribuem ativamente para o enraizamento do racismo e do preconceito em relação às mulheres negras. 

Cláudia Turpin, para a revista Activa, cita quatro "bocas" que nos são ofensivas e que estamos fartas de ouvir. São elas:

"És uma negra bem bonita"
O que está implícito neste comentário é que os negros, em geral, são pouco atraentes. Isto para não mencionar a noção condescendente de que a pessoa que está a tentar "elogiar" é uma rara exceção à regra, que, diga-se de passagem, só existe por causa de preconceitos. Da próxima vez, deixa a qualificação e as nuances racistas de lado, e faz apenas uma afirmação genuína sobre a beleza da outra pessoa. Já agora, podemos juntar o "És diferente. Vê-se que cresceste cá" ao pacote?

"Não pareces negra. Tens alguma mistura?"
Esta pergunta é um sintoma de discriminação pelo tom de pele, na qual as minorias são consideradas mais "aceitáveis" se tiverem traços físicos que se assemelham aos de pessoas brancas. Em vez de dizerem a uma mulher negra que ela é bonita ou inteligente, pessoas de todas as raças, incluindo alguns homens negros, perpetuam a suposição de que essas características só podem ser alcançadas através da existência de relações interraciais na linhagem familiar.

"Tens tanta sorte! Não precisas de bronzear"
Sim, as pessoas negras têm mais melanina, uma proteína que é responsável pela pigmentação da pele, do cabelo e de outros pelos no corpo. A dita sorte por termos um "bronze natural" prende-se com as preferências pessoais de cada um em relação ao tom de pele. Porém, há uma ideia errónea de que não conseguimos ficar bronzeados. Embora tenhamos menos probabilidades apanhar escaldões ou de ter cancro da pele, não deixamos de estar vulneráveis aos efeitos nocivos dos raios solares e precisamos de proteção e cuidados *como toda a gente*.

"Tenho uma queda para negras"
Alô? Noção precisa-se. As negras não são todas iguais. Então, quem diz isto sente-se atraído especificamente pelo quê? Dependendo da resposta, poderá estar a sugerir que só tem interesse nos estereótipos associados às mulheres negras, e não nas características individuais de cada uma. Não há nada de errado em achar certos detalhes atraentes - penteados, traços faciais ou diferentes tipos de corpo - mas é perigoso sugerir que qualquer combinação dessas qualidades representa o todo de uma etnia.

Os tópicos acima referidos espelham na perfeição o que referi no início desta crónica, há elogios que são dispensáveis, sobretudo se forem capazes de constranger aquele que o ouve. Na dúvida sobre como elogiar uma mulher negra, sem cair no erro de perpetuar estereótipos ou preconceitos, recomendo sensibilidade e bom senso, que esses nunca falham.

Por experiência própria acrescentaria dois ou três "cumprimentos", como, por exemplo, este: "Deves ser uma bomba na cama". Mas isso já é assunto para outra crónica, que esta já cumpriu o seu propósito. Fica bem, na companhia do meu abraço amigo!

Autoria e outros dados (tags, etc)

7C6F72BF-5391-40B2-B021-7DDB24400582.jpegOra viva! ✌️

Um artigo publicado ontem na Activa serve de mote a este post, o qual intenta dar-te conhecimento de 15 sinais comuns àqueles que sacrificam constantemente as suas necessidades emocionais em prol da felicidade e do bem-estar alheios.

Uma coisa é querer dar-se bem com os outros, fazendo por agradá-los, outra bem diferente é dar-lhes prioridade absoluta na nossa vida. "Quando comprometemos quem somos e aquilo de que precisamos, agradar aos outros ultrapassou a linha que separa a bondade do auto-abandono", explica a psicoterapeuta Sharon Martin, num artigo para o Psychology Today. Daí que esta especialista alerte para os seguintes comportamentos, típicos de quem vive para agradar aos outros:

1. Queres que toda a gente goste de ti;

2. Pedes desculpa por tudo;

3. Anseias por validação;

4. Permites que as pessoas se aproveitem de ti;

5. Sentes-te culpada, ou que és má pessoa, quando impões limites;

6. Tens medo de conflitos;

7. Sempre foste ‘certinha’, ou seja, uma pessoa que segue as regras;

8. Acreditas que o 'self-care' é opcional;

9. Sentes-te tensa, ansiosa e no limite;

10. Esperas ser perfeita e segues padrões elevados;

11. Colocas-te em último lugar e não sabes pedir aquilo de que precisas;

12. És sensível a críticas;

13. Pensas que os seus sentimentos, necessidades, opiniões e ideias não são tão importantes quanto os das outras pessoas;

14. Gostas de ‘consertar’; detestas ver alguém magoado, com medo, triste ou desconfortável;

15. Ficas ressentida porque pedem-te sempre para fazeres mais e gostavas que as outras pessoas tivessem mais consideração pelos teus sentimentos e necessidades.

Se te revires em mais do que uma dezena destes sinais é caso para acionares o alerta vermelho e repensares a tua postura, pois não és uma prioridade para ti mesma. No meu caso, ficou claro que preciso lapidar sete deles.

Um beijo, um abraço, um sorriso e um até quarta!

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Melhor Blog 2020 Sexo e Diário Íntimo


Melhor Blog 2019 Sexo e Diário Íntimo


Melhor Blog 2018 Sexualidade





Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D