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Crónicas, contos e confissões de uma solteira gira e bem resolvida que (ainda) não cumpriu o papel para qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar pulos de alegria? Provavelmente, nem uma coisa nem outra!

30
Jul20

5453FBBC-571B-4BF5-B50A-387E1BA46E40.jpegOra viva! ✌️

Há muito que ansiava escrever sobre certas atitudes que adotamos, com maior ou menor grau de consciência, por uma mera questão de conveniência alheia ou polidez social. A isso chamo eu de fretes emocionais, meros hábitos que intentam expressar emoções que não sentimos, nem tão pouco desejamos sentir, de modo a agradar aos outros ou a não ferir os seus sentimentos.

No outro dia, numa troca de palavras nada agradável, uma das minhas colegas de casa acusou-me, com um arzinho típico de quem levou calote da vida, de não gostar dela. Perguntei-lhe se tinha cara de sua mãe. Ao ver a sua patética expressão de incompreensão, lá me dei ao trabalho de esclarecer: "A tua mãe é que tem a obrigação de gostar de ti. Como não é o caso...!"

Estou ciente que assumir tal posição provavelmente faz de mim uma criatura insensível, cruel até; uma verdadeira bitch, para não estar com rodeios. "Mi go" é uma expressão típica da minha língua materna que traduz na perfeição o quanto estou-me nas tintas para isso. Eu não faço questão de gostar das pessoas, assim como não faço questão que elas gostem de mim. Faço é questão de dar tempo ao tempo, na expectativa de que me deem razões para delas gostar. E isso, em circunstâncias normais, só acontece com o tempo, a convivência, o conhecimento e o amadurecer da relação, período após o qual vou chegando à conclusão se a pessoa é (ou não) digna da minha estima.

Gostar de alguém só porque sim, ou só porque é o que se espera de mim, é que não. Não acho que tenha que demonstrar um sentimento que não nutro só para vestir a pele da alma boazinha ou da pessoa ultra educada. Daí que fique sempre estupefacta perante a quantidade de criaturas que acham que a estima alheia é um direito seu e não um privilégio. Gostarem de nós não é um dado adquirido, mas sim uma benção, pelo qual temos que fazer por merecer.

No caso que referi há pouco, é óbvio que a dita cuja não foi capaz de se aperceber pelos próprios neurónios que eu não tenho nenhuma obrigação (moral ou legal) de dela gostar. O facto de partilharmos a mesma habitação não implica que lhe devo estima automática, menos ainda amizade instantânea. Implica sim tratá-la com educação e respeito, como demanda a (boa) etiqueta social. Nada mais que isso!

Há pessoas por quem nutrimos uma empatia natural e momentânea, só de lhes por a vista em cima. Ainda no outro dia, no tal curso de iniciação à bicicleta de que te falei no post anterior, conheci uma rapariga, que mais tarde vim a descobrir ser minha patrícia, com quem partilhei uma vibração positiva de nível premium. Em contrapartida, existem outras com quem antipatizamos no instante em que os nossos olhos nelas batem, sem precisão sequer de proferirem uma sílaba. Foi o que aconteceu com esta tal colega, uma fulaninha brasileira por quem nutro uma profunda antipatia, da qual não faço questão de disfarçar. Abro aqui um parêntesis para deixar bem claro que não estou a falar mal dos brasileiros, apenas a descrever o meu sentimento por uma em particular.

Em tempos não muito distantes, achava por bem maquilhar os meus sentimentos menos nobres, sobretudo se estes não fossem de encontro ao politicamente correto. Hoje, nos primórdios das minhas quatro décadas de vida, não encontro razões para assim continuar a agir. Se te tenho estima, sorte a tua; se não te tenho estima, azar o teu. Quer no primeiro como no segundo caso, há que fazer por merecer. Pois, afeto é um sentimento que se conquista e não que se exige.

Aquele abraço só nosso!

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black-lives-matter-1011597_1920.jpgViva!

Por mais que deseje que assim fosse, o racismo não nasceu nem vai morrer com o caso George Floyd. Este é tão-somente o mais recente (e, provavelmente, um dos mais revoltantes) episódios de uma saga, cujo tempo de antena já não se justifica, cuja realidade deveria ter perdido há muito o seu lugar na história da humanidade, cuja batalha escusava o mundo de estar a enfrentar neste momento de tamanha vulnerabilidade, incerteza e incapacidade.


Na qualidade de membro da raça mais fustigada por este cancro social (sem cura à vista, há que assumir), assumo que o racismo está tão enraizado nas sociedades - em umas mais do que em outras, é certo - que são precisos episódios como este de Mineápolis para que nos lembremos de que estamos longe de vencer esta guerra; se é que isso algum dia acontecerá.
 
Racista não é só aquele que chama "preto" ao africano, não é só aquele que diz "vai para a tua terra", não é só aquele que diz que prefere morrer a ter um neto "de cor", muito menos aquele que se refere aos negros como "macacos". Racista é, na sua essência, aquele que acha que não é, pois ao achar que não é, não vê motivos para mudar a sua perceção, erradicando assim da sua crença a convicção de que o valor das pessoas varia consoante a cor da pele ou os traços fisionómicos. Racista é aquele que, no alto da sua prepotência, apregoa que o racismo não existe.
 
O racismo existe sim! Trata-se de uma realidade transversal a todos os países, com Portugal a não ser uma exceção. Eu mesma aqui testemunhei, no post Quando pensamos que o racismo é coisa do passado há sempre alguém para nos lembrar do contrário, o quão utópico é acreditar que neste país essas coisas não acontecem. Talvez não aconteçam com a mesma regularidade, vulgaridade e gravidade como nos Estados Unidos, mas convém não esquecermos os casos da Cova da Moura ou do Bairro da Jamaica, só para citar os mais flagrantes. A esses deu-se destaque na opinião pública. E aos outros, àqueles que acontecem todos os dias e dos quais, muitas vezes, nem as próprias vítimas se apercebem?
 
Estes três casos, publicados na edição de março de 2019 da Vogue Portugal, ilustram – e de que maneira – aquilo que acabei de referir:

Amélia candidatou-se a um emprego numa instituição bancária. Como não pôs a fotografia no currículo, acabou por ser contratada, depois de passar por um processo de seleção. Percebeu na entrevista final que o chefe tinha ficado de pé atrás, e um dia tomou coragem e perguntou-lhe diretamente se tinha a ver com o facto de ser negra. Frontal, ele assumiu que sim, justificando que o banco tinha como política não contratar nem negros nem brasileiros, e que se ele tivesse visto a sua fotografia antes, ela não seria selecionada.
 
Mamadou tentou durante meses arrendar uma casa no centro de Lisboa. Nunca conseguiu. Por ter sotaque, à custa da sua origem senegalesa, ao entrar em contacto com o proprietário, levou sempre com a promessa de que receberia mais informações por SMS. Ao tuga de gema, com sotaque lisboeta, que ligava imediatamente a seguir, davam logo a morada, por telefone ou por SMS.
 
William, estudante de arquitetura em Londres e de férias em Lisboa, deixou a mãe à porta de casa para ir estacionar o carro. Sem nada fazer, foi mandado parar por dois polícias e levado para a esquadra. O argumento para tal? Uma carta de condução que os agentes insistiam que não era. Ele não teve dúvidas sobre a única razão de ter sido considerado suspeito: era castanhinho.
 
Inocência, professora doutorada na Faculdade de Letras de Lisboa, estava no Hospital de Santa Maria quando perguntou a uma enfermeira onde ficava um certo serviço. "Está ali indicado na placa, sabe ler?", foi a resposta que obteve.
 
Estes são apenas quatro, de entre incontáveis, histórias do Portugal de hoje. Pequenas amostras de um fenómeno muito mais colossal e transversal do que a maioria quer revelar ou reconhecer. A ponta de um icebergue, cuja dimensão e profundidade poucos de nós se sentem preparados para encarar, aceitar, lidar e lutar.
 
Termino reforçando que black lives matter sim, tal como todas as outras, e que só existe uma raça: a humana!

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19624959_KrWsd.jpegOra viva!

Dada a sua pertinência, bem como o grande interesse que suscitou, republico um post de há quatro anos sobre a mulher poderosa. Lê (novamente) e empodera-te!
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Mulher poderosa! Este conceito começa e acaba na autoconfiança, a meu ver, uma das chaves para a felicidade. Como a descreveria? Como alguém que se aceita exatamente como é, com todos as qualidades e defeitos. Como alguém que assume, sem titubear ou lamentar, o seu lugar no mundo e na sociedade. Como alguém que pode não ter tudo o que quer, mas quer tudo o que tem. Como alguém que batalha todos os dias para ser mais e melhor - mais e melhor ser humano, mais e melhor mulher, mais e melhor cidadã, mais e melhor parente, mais e melhor companheira, mais e melhor amiga, mais e melhor colega, mais e melhor progenitora, mais e melhor amante, mais e melhor tudo. Como alguém que tem plena consciência de que a vida nem sempre é justa, que (algumas) pessoas dececionam, que poucos amores são eternos, que amigos vão e vem, que desafetos fazem parte da vida, que problemas servem para serem superados, que situações difíceis ajudam-nos a amadurecer, que "o que não mata nos torna mais fortes". 

Enfim... poderia passar o post inteiro a enumerar as caraterísticas inerentes à minha perceção de mulher poderosa. Por ora, vou atentar-me aos 12 mandamentos de uma pessoa bem resolvida consigo e com o mundo ao seu redor:

1. Não abras mão de uma BFF (Beste Friend Forever)
Arranja ou conserva uma amiga confidente e que te dê dicas sinceras e valiosas – mesmo que dolorosas – sobre qualquer assunto.

2. Cultiva a positividade
Tenta sorrir mais, rir com gosto e animar os outros ao teu redor. Lembra-te que recebemos aquilo que damos.

3. Não abras mão do amor
O amor vale sempre a pena, mais não seja porque adoça a vida. Por isso, encontra alguém com quem queiras ser feliz o resto da vida e faz dele a mais feliz das criaturas.

4. Aposta na descrição
Cultiva a discrição em relação à tua vida pessoal, especialmente nas redes sociais. Nesse capítulo, mais é melhor.

5. Corre riscos
Se já não és feliz no trabalho, na relação ou no que mais for, não tenhas medo de mudar. Muda de área, de empresa, de colegas, de amigos e até de amor, pois a magia geralmente acontece fora da nossa zona de conforto.

6. Pratica o perdão
Perdoar é um bálsamo para a alma e um sossego para o espírito. Passar por cima de uma traição depende unicamente do teu livre arbítrio. Por mais que a opinião daqueles com quem convives seja importante, a decisão deverá ser sempre tua.

7. Cuida da tua aparência
Investe em exercício físico, alimentação saudável, tratamentos estéticos e tudo o mais que possa contribuir para uma aparência agradável, saudável e apelativa. Em matéria de acessórios, carteiras, óculos, relógios e perfumes formam o quarteto no qual vale a pena fazer um bom investimento.

8. Sofre, mas apenas o necessário
Não é vergonha sofrer pelo fim de uma relação. Mas é preciso saber parar, levantar a cabeça e seguir em frente. Hoje dói menos do que ontem e mais do que amanhã.

9. Não percas tempo com quem já foi
Se é ex por algum motivo é… por isso não tenhas interesse em saber o que quer que seja sobre ele. Tanto faz que esteja solteiro, casado, noivo ou gay, pois ele já não faz parte da tua vida.

10. Inspira-te nos outros
Procura inspiração em alguém que admires. Existem inúmeros casos de mulheres debem-sucedidas que vale a pena "imitar".

11. Traça um plano para a tua vida
Define um plano B, C ou D (afinal o alfabeto vai até Z). Uma mulher prevenida vale por duas, pelo que dois planos valem por uma vida inteira.

12. Poupa-te a emoções tóxicas
Só entres numa briga se não poderes evitar ou perante a certeza da vitória. Caso contrário, estarás a abrir a porta a emoções negativas, que só te vão desgastar e fragilizar. Isto vale para tudo na vida: relações profissionais, familiares, sociais e, sobretudo, amorosas.

Agora que já tomaste conhecimento desta dúzia de truques, estás à espera de quê para te transformares numa super woman? Se te serve de motivação extra, fica a saber que poucos homens (com H, claro!) conseguem resistir a uma mulher poderosa.

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Viva!

Para hoje, dia com os minutos todos contados, escolhi republicar um texto do Pedro Caballero Serodio, focado na azáfama da vida contemporânea, mais precisamente na "catrefada" de coisas que a sociedade nos recomenda (quando não impõe) como politicamente corretas e/ou saudáveis. Aprecia-o!

Dizem que todos os dias temos que comer uma maçã para o ferro e uma banana para o potássio. Também uma laranja para a vitamina C, meio melão para melhorar a digestão e uma chávena de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.
 
Todos os dias temos que beber dois litros de água (sim, e logo a seguir mijá-los, que leva quase o dobro do tempo que os levei a beber). Todos os dias temos que tomar um Activia ou um iogurte para ter 'L.Cassei Imunitas', que ninguém sabe exactamente que merda é, mas parece que se não ingeres um milhão e meio todos os dias começas a ver toda a gente com uma grande diarreia ou presos dos intestinos.
 
Cada dia uma aspirina, para prevenir os enfartes, mais um copo de vinho tinto, para a mesma coisa. E outro de vinho branco, para o sistema nervoso. E um de cerveja, que já não me lembro para que era... Se os tomares todos juntos, mesmo que te dê um derrame cerebral ali mesmo, não te preocupes, pois o mais certo é que nem dês conta disso.
 
Todos os dias tens que comer fibras. Muita, muitíssima fibra, até que sejas capaz de cagar uma camisola bem grossa! Tens que fazer quatro a seis refeições diárias leves, sem te esqueceres de mastigar cem vezes cada garfada.
 
Ora, fazendo um pequeno cálculo, apenas a comer vão-se assim de repente umas cinco horitas. Ah, depois de cada refeição deves escovar bem os dentes, ou seja: depois do Activia e da fibra, os dentes. Depois da maçã, os dentes. Depois da banana, os dentes e assim enquanto tiveres dentes, sem nunca te esqueceres de passar o fio dental massajador das gengivas e bochechar com PLAX...
 
Melhor! Amplifica a casa de banho e põe a aparelhagem de música lá, porque entre a água, a fibra e os dentes vais passar horas, quase metade do dia ali dentro. Equipa-o também com jornais e revistas para te pores a par do que se passa enquanto sentado na sanita.
 
Temos que dormir oito horas e trabalhar outras oito, mais as cinco que usamos a comer, faz vinte e uma. Restam três horas, sempre que não surja algum imprevisto. Segundo as estatísticas, vemos três horas de televisão diárias. Bem, já não podes porque todos os dias devemos caminhar pelo menos uma meia hora (dado por experiência: ao fim de 15 minutos é melhor regressar, senão andas mas é uma hora!).
 
E há que cuidar das amizades porque são como uma planta: temos que as regar diariamente. E quando vais de férias também, suponho, senão as plantas morrem nas férias. Para além disso há que estar bem informado e ler pelo menos um dos jornais diários e outro de uma revista séria para comparar a informação. Ah! E temos que ter sexo todos os dias, mas sem cair na rotina: temos que ser inovadores, criativos, renovar a sedução. Claro!
 
Isso leva o seu tempo. E já nem estamos a falar do sexo tântrico! (A respeito disso, relembro: depois de cada refeição temos que escovar os dentes!).
 
Também temos que arranjar tempo para a maquilhagem, a depilação/fazer a barba, varrer a casa, lavar a roupa, lavar os pratos e já nem digo, os que têm gatos, cães, pássaros e uma catrefada de filhos...
 
No total, a mim dá-me umas 29 horas diárias. Isto se nunca parares! A única possibilidade que me ocorre é fazer várias destas coisas ao mesmo tempo: por exemplo, tomas duche com água fria e com a boca aberta, e assim bebes logo os dois litros de água de uma vez. Enquanto sais do banho com a escova de dentes na boca, vais fazendo o amor, o sexo tântrico, parado junto ao teu mais que tudo, que de passagem vê TV e te vai contando o que se passa, enquanto varres a casa.
 
Sobrou-te uma mão livre? Não, não penses nisso! Telefona aos teus amigos e aos teus pais! Bebe o vinho (que depois de telefonares aos teus pais vai fazer-te falta!). O iogurte com a maçã pode dar-te o teu par, enquanto ele come a banana com a Activia. No dia seguinte troquem! E menos mal que já crescemos, porque senão tínhamos que engolir mais umas Cerelacs e um Danoninho Extra Cálcio todos os santos dias. Úuuuf! Mas se te restam 2 minutos, reenvia isto aos teus amigos (que temos que regar como as plantas) enquanto comes uma colherzinha de Muesli ou Al-Bran, que faz muito bem...
 
E agora vou deixar-te porque entre o iogurte, o meio melão, o primeiro litro de água e a terceira refeição do dia já não faço a mínima ideia o que é que estou a fazer porque preciso urgentemente de uma casa de banho.
Ah, vou aproveitar e levo comigo a escova de dentes...
 
Que a segurança e a proteção estejam contigo. Bom fim de semana!

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04
Mar20

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Ora viva!

Recém-adentrados em março, é com expetativa jubilada que ansiamos pelas mudanças que se lhe associam: o inverno que dará lugar à primavera, o dia que ganhará mais uma hora, o vestuário que ficará mais leve, as pessoas que terão melhor disposição e as atividades ao ar livre que se multiplicarão. Março é igualmente associado ao género feminino, já que é precisamente neste mês que se assinala o Dia Internacional da Mulher (no meu caso a celebração é sempre a dobrar, pois a 27 comemoro o Dia da Mulher Cabo-verdiana). Portanto, motivos tenho eu de sobra para recebê-lo de espírito aberto e coração grato.

Que tal pormos esta aura de mudança que paira no ar ao serviço da causa feminina, ou seja, que tal aproveitarmos este março - o primeiro de uma nova década - para promovermos uma real e concreta mudança na forma como percecionamos a mulher e o seu papel na sociedade? Que tal arregaçarmos as mangas e batalharmos arduamente por uma mudança capaz de promover uma socialização consciente, a par de uma sensibilização consistente, sobre alguns dos maiores flagelos que ameaçam a sua condição e a sua dignidade: relações abusivas, violência doméstica, violência no namoro, assédio sexual, assédio moral, descriminação baseada no género e desigualdade de oportunidades? Que tal marcharmos em direção a uma nova revolução, desta vez das rosas, capaz de restituir à mulher o lugar que lhe pertence por direito humanista: ao lado do homem (não atrás, muito menos abaixo). Sobretudo, que tal uma mudança da mulher em relação a si própria? 

Uma mudança efetiva e sustentável é aquela que é encetada de dentro para fora. No caso da tal Revolução das Rosas que referi há pouco, deve ela iniciar-se precisamente dentro de cada um de nós. Que a nossa vida muda quando resolvemos mudar é algo que todos ouvimos em algum momento. No caso da mulher, para que a sociedade, e ela própria, mude a forma como a encara, ela tem que mudar a sua autoperceção. Como? Confiando mais em si, acreditando na sua importância, valorizando a sua essência, resgatando a sua força, investindo nas suas capacidades e assumindo todo o seu potencial. Reconheci na crónica para o Público que Este país (ainda) não é para solteiras. E para as mulheres em geral será que é?

Reza a história que várias revoluções verdadeiramente impactantes deram-se sem recurso ao conflito armado, em que grandes líderes, como Luther King, Mandela, Gandhi, Buda ou até mesmo Cristo, conseguiram encetar verdadeiras mudanças à base da consciencialização do poder das massas. Que a revolução feminina pela qual tantos de nós ansiamos se faça igualmente sem alarido, na surdina, na consciência e no coração de cada um de nós. Que o empoderamento da mulher se dê acima de tudo dentro dela.

Desconheço força mais inspiradora, e demolidora, que aquela que a mulher é capaz de despertar/ativar dentro de si. É por isso que aos céus brado com orgulho: não há nada que uma mulher não seja capaz de fazer (desde que a isso se proponha, claro!). E se ela quiser que uma mudança ocorra, ela há de conseguir que essa mudança ocorra. Com toda a certeza!

Que este março de 2020 nos permita transformar os tais ventos de mudança que há muito pairam sobre nossas cabeças num vendaval capaz de varrer da nossa sociedade crenças, atitudes, padrões, comportamentos, mentalidades e realidades que põem em causa a vida e a dignidade da mulher. Que neste mês sejamos todos porta-vozes da mudança, porta-bandeiras da dignidade feminina, os verdadeiros agentes da mudança. Que neste março sejamos todos Mulher!

Aquele abraço amigo e até breve!

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Viva!

Sabes que dia é hoje, single mine? É o Dia dos Solteiros! Instituída em 1993 pela universidade chinesa de Nanjing, esta celebração visava na sua génese dar uma oportunidade aos estudantes desemparelhados de celebrarem o próprio estatuto com dignidade. Por o número representar uma pessoa sozinha, foi escolhido o dia 11 de novembro. 

De lá para cá o Dia dos Solteiros (Guanggun Jie) transformou-se num autêntico festival de entretenimento e um dos principais dias de comércio online do mundo. É neste contexto que reciclo um artigo de há dois anos que se debruçou precisamente sobre o consumismo que assola a nossa sociedade, sobretudo num dia 
que era suposto ser de exaltação da solteirice, mas que se transformou no maior do comércio online mundial.

Se dúvidas houvesse de que o shopping é uma das melhores amigas da solteirice, eis a prova: a Alibaba, a gigante chinesa de vendas online, no ano passado por esta altura bateu um recorde de vendas, ao amealhar 27,4 mil milhões de euros, superando a facturação conjunta da Black Friday e da Cyber Monday nos Estados Unidos. Este ano estima-se que deverá movimentar 41 mil milhões de euros.

A efeméride conseguiu atravessar a Grande Muralha da China, acabando assinalada um pouco por todo o mundo, ainda que em datas distintas; por exemplo, em terras de Afonso Henriques está, desde 2006, agendada para 29 de setembro e mm terras de Vera Cruz para 15 de agosto.

E já que este dia coincide com o de São Martinho, que tal celebrá-lo com castanhas e jeropiga? Afinal, nós solteiros merecemos!

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Viva!
 
Como prometido, eis-me aqui com a tal crónica sobre vegansexualidade, aquela que deveria ter ido para o ar na sexta-feira não fosse eu andar a meter o bedelho em conversa alheia.

Um artigo da Visão, datado de 13 de outubro, mas que só recentemente me chegou à vista, deu-me a conhecer uma nova designação sexual: vegansexual. Quanto a ti não sei, mas eu nunca tinha ouvido falar dessa coisa dos vegans só "sexarem" entre si. Ah pois é, ela não só já é uma realidade vincada em vários praticantes da dieta zero consumo de origem animal, como se prevê que no futuro exista em maior número.

A investigadora Annie Potts, a propósito de um estudo sobre consumo livre de crueldade na Nova Zelândia, deparou-se com tantos vegans que se assumiram incapazes de ter relações íntimas com carníveros que não hesitou em inventar o termo "vegansexuais". 

Entre os 157 participantes no referido estudo (120 dos quais pertencentes ao sexo feminino), a maioria (63%) afirmou que tinha ou desejava ter um parceiro que também estivesse comprometido com a causa veggie. Uma de 21 anos admitiu mesmo estar a considerar deixar o namorado por este não partilhar do seu ponto de vista. Outra vai mais longe, afirmando que "não gostaria de ter intimidade com alguém cujo corpo é literalmente feito de corpos de outros seres que morreram para o sustentar". Segundo ela, "mesmo que achasse a pessoa muito atraente, não ia gostar de se aproximar dela se o seu corpo fosse derivado de carne".

Se para um fumador beijar quem fume é como lamber um cinzeiro, para um vegan o corpo de quem ingere carne é perfeitamente equiparável a um cemitério, já que no seu entender "os corpos das pessoas que não são vegan têm um cheiro diferente". É caso para nos perguntarmos se, entre os benefícios da dieta vegan, consta olfato ultrassensitivo.

Uma outra entrevistada confessou não cogitar a hipótese de beijar lábios que "permitem que pedaços de animais mortos passem entre eles". Para esta senhora de 49 anos, trata-se, mais do que uma questão de gosto pessoal, de ética sexual. Que dizer depois disto, pergunto-me eu a esta altura da escrita?

Não é de hoje que se fala na ascensão do número de vegans que procuram outros vegans para se relacionar, seja para amizades a preto&branco ou a cores. Uma realidade confirmada recentemente por uma empresa que organiza "speed dates" há cerca de 17 anos, em terras de sua majestade. De acordo com uma sondagem da SpeedDater, 56% dos vegetarianos e vegans dispensem conhecer um comedor de carne.

Ao ponto que isto chegou. Para além da idade, da altura, da cor da pele, do formato do corpo, da tonalidade dos olhos, do tom dos cabelos, etc., etc., etc., agora acrescenta-se um novo critério de seleção (ou exclusão) no campo sexual: tipo de dieta alimentar. Do tipo: "Olá, eu sou vegansexual. Como não como carne, também não "como" quem come carne. Se for esse o teu caso, baza daqui que só de olhar para ti faz-me lembrar um cemitério. Metes-me nojo!"

Por hoje é tudo, voltarei na quarta para mais um bate-papo só nosso. Até lá aquele abraço amigo e desejos de uma semana recheada de sexualidade, seja ela vegan ou não!

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07
Out19

Regras para ser feliz

por LegoLuna

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Viva!

Segunda-feira é um dia que dificilmente inspira sentimentos efusivos. Que o diga a classe assalariada. Como se não bastasse o retorno à rotina, sabemos ter à nossa espera uma carga adicional de trabalho, à custa de novos assuntos que entraram durante o fim de semana ou de coisas pendentes que herdamos da semana que findou.

Assim, é unânime que se trata do dia mais exigente da semana, em que as horas tardam a passar e os assuntos teimam em deixar-se despachar. Tendo isso em mente, escolhi para tema desta crónica, inspirada num artigo do Delas, algumas regras capazes de nos proporcionar uma existência (mais) feliz, não só no início da semana, mas em qualquer altura da vida. 

Anota aí quais são as oito atitudes que tens de passar a cultivar, a par de sentimentos recorrentes que tens de abandonar. Isto, claro, se é tua intenção ser feliz!
 
Não tentes agradar a todos
A felicidade não é algo que se deva terceirizar, sob pena de a tornar refém da atuação alheia. Assim, a tua prioridade deverá ser sempre corresponder primeiro às tuas expectativas e só depois às dos outros. É claro que por vezes é preciso fazer cedências, mas convém teres sempre em mente que tu és o elemento mais importante da equação.

Acaba com as reclamações a custo zero
Reclamar é um vício altamente desgastante, e tóxico. Quanto mais reclamamos mais motivos a vida nos dá para isso. Se for esse o teu caso, que tal, se em vez de estares sempre a mandar vir com tudo e todos, agradeceres por teres vida, saúde e capacidade intelectual para reagir ao que te incomoda? Vais ver que assim terás (mais) tempo para apreciar o lado bom da vida. Sem falar que as coisas só têm a importância que lhes atribuímos.

Esquece os rótulos
Uns são saloios, outros betos, alguns freaks e o resto totó. Assumo que dou comigo, mais vezes do que gostaria, a rotular aqueles que cruzam o meu caminho, etiquetando a maioria de anormal e raramente me sentindo bem na companhia de quem quer que seja. Resultado: estou quase sempre sozinha e identifico-me cada vez menos com os outros. Com este post desafio a mim mesma a parar com essa mania e a passar a dar mais importância às semelhanças do que às diferenças.

Aceita que nem sempre tens razão
Se até mesmo os génios se enganam, porque fazer questão de ter sempre razão? Sempre que te sentires convicta disso, fica com a tua certeza e embarca o resto do mundo numa viagem de circunavegação à volta da Atlântida. Se, pelo contrário, sentires que a estória não é bem assim, recua, pede desculpas (se for o caso) e relaxa, que da vida queres muito mais do que ser dona e senhora da razão.
 
Não te leves tão a sério
Uma das citações que mais me inspiram na vida é aquela que diz: "Não leves a vida tão a sério que podes não sair dela vivo!". Ora nem mais! Quando levamos as coisas demasiado a peito, estamos a autoinflingir-nos uma enorme carga emocional, com sérias consequências para a nossa saúde física e mental. São exemplos dessas consequências o stress, a depressão, a ansiedade, o desafeto, o conflito e a autocensura; tudo coisas que não contribuem em nada para a nossa felicidade.
 
Não sejas derrotista
Se quiseres muito uma coisa, e fizeres por ela, dificilmente vais deixar de consegui-la. Não desistas, mesmo quando a tua voz interior te disser que vais fracassar. Lembra-te que, por conhecer melhor que ninguém todas as tuas fraquezas, ela poderá ser a tua maior inimiga. Sempre que ela te quiser sabotar, repete para ti mesma: "Eu consigo e não hás de ser tu a impedir!". Neste momento tenho em mente um projeto ousado que me poderá levar ao estrelato, pelo que diariamente me debato com essa mesma voz que me diz que estou a sonhar alto demais, que não vou conseguir e que vão desdenhar de mim. Noutros tempos, desistiria na hora. Hoje, usa-a como motivação extra, nem que seja pelo brio em provar que ela não é mais forte do que a minha determinação em provar que sou capaz.
 
Não adies o que tens para fazer
Lá diz, e bem, o dito popular: para quê deixar para amanhã o que se pode fazer hoje? Tirando, o maldito artigo para o P3, posso dizer que sou uma aluna exemplar nessa matéria. Não gosto de deixar nada pendente, sejam afazeres domésticos, tarefas no trabalho, exercícios no ginásio ou assuntos burocráticos. Já que tenho que fazer mais vale fazer assim que possível.
 
Brinca como se fosses uma criança
Resgata a criança que há (ou houve) em ti e faz coisas que te divertem, sem culpa nem censura. Reserva um tempo para brincar, tal e qual fazias quando eras pequena. Fazer algo sem outro intuito que não a pura diversão é das coisas que mais bem fazem à alma. Eu, por exemplo, adoro dançar no meio da rua. Todos ficam a olhar para mim, achando que não bato bem da tola, mas quero lá saber. O que importa é que me sinta bem e não esteja prejudicando ninguém.
 
De forma consciente ou não, todos nós cultivamos (em algum momento da nossa existência) hábitos e atitudes que atentam contra a nossa felicidade, mais não seja porque põem em causa a harmonia das nossas relações interpessoais. Como vamos sempre a tempo de mudar para melhor, com este artigo tens um bom apoio para dares os primeiros passos rumo a uma existência mais feliz. Faz bom uso dela.
 
Até à proxima!

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Viva!

Hoje quero abordar um assunto que tenho vindo a adiar, com receio de que o discurso acabe por revelar-se demasiado inflamado, logo demasiado propenso a ferir suscetibilidades, precisamente o tema desta crónica.

Não é de hoje que acuso um enorme desconforto e alguma revolta (porque não assumi-lo?) cada vez que me chegam aos ouvidos relatos de acusações de racismo, que, nos dias que correm, parecem estar a fazer escola. Acusa-se alguém de racismo por tudo e por nada. A forma leviana e inconsequente com que se tem dado uso ao termo está a prejudicar despudoradamente o racismo na sua génese. Com isso quero deixar claro que muitas das atuais acusações de racismo mais não têm feito que roubar protagonismo a verdadeiros casos onde este é gritante, alarmante e incapacitante.

Para que entendas bem aquilo a que me refiro, cito o caso do chefe do governo canadiano, Justin Trudeau, que há poucos dias viu-se envolvido numa enorme polémica despoletada pela divulgação de uma fotografia em que, numa festa temática sobre noites árabes, aparece de turbante e com a cara escurecida.

Tendo acompanhado desde a primeira hora toda a celeuma à volta do assunto, continuo sem atinar com o cerne da acusação, segundo a qual "pintar a cara de castanho ou negro, o blackface/brownface, era comum em espetáculos do século XIX e contribuiu para a propagação de estereótipos sobre a população negra ou de pele escura."

Como é que o
 facto do Trudeau ter aderido ao espírito de uma festa temática, incorporando na perfeição uma personagem – que foi exatamente assim que interpretei a coisa, e graças a Deus que não fui a única – pode ser considerado racismo, ao ponto deste se vir obrigado a pedir desculpas publicamente? Se formos por aí, um branco que usa tranças ou uma branca que anda com um "black" podem dar azo a acusações de racismo. Afinal, estariam a apropriar-se de algo exclusivo ou identificativo de uma raça que não a sua. 

Voltando ao caso do governante canadiano, o mais hilariante é que os primeiros a apontarem o dedo foram pessoas brancas e não aqueles que tinham toda a legitimidade para o fazer: os de pele escura. 
Acaso, perguntou-se aos supostos "visados" se se sentiram vítimas de racismo? Agora pergunto eu: e se fosse o contrário? Um negro fantasiado de caucasiano, com a cara pintada de branco, configuraria racismo? Ou será que o racismo é uma estrada com várias vias num único sentido?

Ao que parece o racismo só é considerado válido quando é o branco que "se apropria" de alguma caraterística ou símbolo de outra raça, etnia ou cultura. Porque quando se dá o oposto não é costume alguém vir bradar para a esfera pública que se está a cometer racismo. E olha que tenho autoridade na matéria para me pronunciar. Na qualidade de negra, orgulhosa de uma mentalidade aberta e de um espírito tolerante, afirmo que não me revejo na maior parte das acusações de racismo que tem vindo a público.

Por experiência própria posso dizer que a esmagadora maioria das pessoas não faz a mais pálida ideia do que é racismo, menos ainda do que é ser vítima dele. Racismo é, por exemplo, não seres selecionado para um emprego – apesar de seres claramente o candidato mais adequado – porque a empresa não quer pessoas "diferentes" em lugares de destaque;
 isso sim é racismo, isso sim é ser vítima de racismo. Dou outro exemplo: racismo é ouvir de um branco que, por mais bem vestida e instruída que sejas, o teu lugar será sempre na ala dos criados. Um branco escurecer artificialmente a cara para ir a um baile de máscaras não é racismo, é politiquice, hipocrisia e overdose de suscetibilidade.

A impressão que tenho é que, nos dias que correm não se pode dizer, fazer, pensar ou até respirar sem ferir alguma suscetibilidade alheia. Sinceramente, já não há paciência. É tanta suscetibilidade narcisista, supérflua e artificial que situações verdadeiramente relevantes acabam ofuscados por pseudocasos, fomentados por quem deseja ver o circo pegar fogo, por quem se sente realizado toda vez que tem oportunidade de brincar de caça às bruxas.

O papel de carrasco que antes a história reservou à Inquisição agora é autoreclamado por todo aquele que se sente, em plena faculdade da sua prepotência e "achismo", no dever moral de criticar, julgar, condenar, apedrejar, ostracizar, humilhar, desmerecer. É deprimente, decadente e preocupante o crescendo de almas encardidas que se acham no direito de apontar o dedo aos outros, como se deuses fossem, e não meros mortais, mais pecadores que Judas.

A essas criaturas só tenho a dizer: tomem conta das vossas vidas, façam por serem melhores humanos, pessoas mais dignas, humildes, virtuosas e solidárias. Hoje és tu a apontar o dedo, amanhã provavelmente serás tu o alvo do dedo alheio. Como diz o dito popular, quando apontamos o dedo a alguém, pelo menos outros três apontam na nossa direção.

Pensem nisso antes de se autoindigitarem polícia da moral e do comportamento alheio. À opinião todos nós temos direitos; só que essa liberdade de expressão não dá a nenhum de nós o direito de cruxificar os outros. Na ausência de algo construtivo para dizer, façamos um favor a nós mesmos, e aos outros: guardemos para nós essa opinião.

O racismo é coisa séria, pelo que só à sua vítima deve ser dado legitimidade para se pronunciar sobre. Não usem, muito menos abusem, da palavra, peço-vos.

Por hoje é tudo, voltarei na quinta com um assunto mais leve, prometo. Até lá aquele abraço amigo de sempre.

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Viva!

Qual é a coisa qual é ela que quem tem a mais não consegue vender e quem tem a menos não consegue comprar? É com esta charada que dou o pontapé de saída a uma crónica sobre o mais valioso de todos os bens na atualidade: o tempo.

Até onde sabemos nenhum ser humano, por maior que seja o seu poder, riqueza ou sabedoria, conseguiu ainda fazer com que o dia tenha mais de 24 horas, a hora mais de 60 minutos e o minuto mais de 60 segundos. Dono e senhor absoluto de si próprio, o tempo é provavelmente a única coisa neste mundo que não difere de género, raça, idade, ideologia, formação, religião, educação, profissão, localização, orientação sexual ou outra coisa qualquer. O que difere é o uso que dele se faz.

É por isso que não hesito em afirmar que o tempo é o único bem impossível de ser transacionado. Ouro compra-se, dinheiro ganha-se, riqueza acumula-se, bens materiais adquirem-se, saúde preserva-se, juventude prolonga-se, velhice retarda-se, morte finta-se. Quanto ao tempo, absolutamente nada a fazer para alterar o seu status quo. Numa lógica inversamente proporcional, quem tem mais "tudo" é justamente quem tem "menos" tempo.

Estamos numa era em que se quer ter tudo, fazer tudo, estar em todo o lado, num constante e ininterrupto desafio à lei da omnipresença e da omnipotência. Ambicionamos, ainda que muitas vezes de forma insconsciente, desempenhar concomitantemente o papel de deus e de homem, numa alarmante obsessão com o divino a prestar vassalagem ao humano, o imortal ao mortal, o criador à criatura.

É alarmante a quantidade de pessoas que se queixa a toda a hora da falta de tempo: tempo para ir ao ginásio, tempo para conviver, tempo para dormir, tempo para ler, tempo para namorar, tempo para cuidar de si, tempo para estar com a família, tempo para isto, aquilo e mais aquele outro. Esta nossa sociedade está a viver (perigosamente, atrevo-me a prognosticar) em função do tempo; e, perante as suas demandas, não há que chegue para tudo.

Se se consegue arranjar tempo para algo com toda a certeza há de faltar para outra coisa qualquer. Por exemplo, se se dorme 8-9 horas é quase certo que há de faltar tempo para ver Netflix, pastar nas redes sociais, navegar na net ou bater papo no Whatsapp; se se dedica muito tempo ao trabalho, a vida pessoal, social ou familiar há de ressentir-se; e vice-versa para cada uma das restantes esferas da nossa vida.

Tempo tempo tempo tempo… Comprar, roubar, aumentar, manipular, reter ou ignorar não é opção. Como fazê-lo então render de modo a ser possível alocá-lo a tudo o que nos importa e faz feliz? Diz a OIT que 85% das profissões de 2030 ainda não foram inventadas. Quem sabe o comerciante (traficante, também dá) de tempo não será uma delas? O que se sabe à partida é que será a mais bem paga de sempre. 

Para já só existe uma certeza: por maior que seja o nosso querer, o tempo é pessoal, instransmissível e inalterável.

Despeço-me com aquele abraço amigo e o conselho de que dês melhor uso ao teu tempo.

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