Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Crónicas, contos e confissões de uma rapariga gira e bem resolvida que (ainda) não cumpriu o papel para a qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar graças? Talvez nem uma coisa nem outra!

girl-1258739_960_720.jpg

Viva!

Um estudo de comportamento apurou que cerca de ¼ da população norte-americana entre os 18 e os 29 anos não teve qualquer relação sexual durante um ano ou mais; uma tendência transversal a várias sociedades ocidentais e que tem vindo a acentuar-se nas últimas três décadas.

Para os especialistas, a explicação para este fastio sexual dos millennials (nome porque é tratada esta geração) parece residir na apetência pelo virtual em detrimento do real. "Há demasiadas solicitações virtuais que exigem respostas e que satisfazem esta geração. O próprio sexo pode ser sem parceiro ativo. O prazer, o desejo ou a atividade sexual já não são uma prioridade", considera um dos envolvidos no estudo.

A propósito disso, Luís Pedro Nunes, numa crónica para a GQ, descreve o estado anémico da vida sexual dos jovens nestes termos: "Li algures uma série de possibilidades que podem estar a contribuir para esta crise de tesão-jovem: alterações na cultura de engate; viver na casa dos pais até tarde; efeitos secundários dos antidepressivos; a explosão do Netflix; aumento do estrogénio devido ao plástico na comida; queda da testosterona; vício no porno digital; viver-se a era de ouro do vibrador; obsessão na carreira; as apps de engate; privação de sono; epidemia da obesidade e mais uma catrefada. Há ainda questões religiosas de jovens que optam por permanecerem virgens até encontrar 'a pessoa certa'". 

Na ótica deste cronista, "o real é cada vez mais um lugar perigoso, onde as regras são pouco claras, cheio de armadilhas e múltiplas interpretações, para além do risco de se ser humilhado pela rejeição – o maior dos medos. E estas apps de engate estão pensadas para que tal humilhação não aconteça, pois há uma troca feita para anular a possibilidade de rejeição. Perante tanto sexo digital, tanta excitação online, tanta emoção de expectativa nas apps, tanta conversa no sexting, o sexo em si – o sexo tradicional, aquilo, tipo, um com uma e nada mais – acaba por parecer dececionante para um jovem".

Se a malta continuar a pinar a este ritmo cada vez mais desacelerado, a humanidade caminha a passo de corrida para a extinção, já que o sexo é a matéria-prima sem a qual a fábrica de bebés dificilmente consegue laborar a pleno vapor. A diminuição do número de cambalhotas é tão flagrante que a maternidade anda em gestão lay-off e as mulheres engravidam cada vez menos e em idade mais avançada.

Just saying, afinal quem avisa amigo é!

Autoria e outros dados (tags, etc)

portrait-3113651_960_720.jpg

Viva!

A propósito dos tais programas televisivos que tanto deram que falar na semana passada e que até cheguei a comentar no post Os "dating shows" são decadentes, contudo viciantesa seguidora NV acedeu partilhar connosco a sua perspetiva deste tema que não se esgota na sua futilidade:

Podia ser uma segunda-feira como outra qualquer... Daquelas cinzentonas, pesarosas, difíceis de digerir. Ou podíamos ser ainda alimentados pelos restos requentados do Conan, da Cristina, do Marcelo ou do futebol. Mas não... explodiu nas redes sociais a partir de uma bolha de fluídos suspeitos depois de uma orgia domingueira em frente à caixinha mágica.

Egos inflamados pelos valores, pelo correto, pelo errado, pelo feminismo, pelo machismo, pela falsa moral, a masturbarem palavras em manifestações de exibicionismo. Eis os senhores da virtude e da razão (virtual). E a razão? Dois programas televisivos, gémeos, separados à nascença. Ambos diferentes e simultaneamente semelhantes, saídos da National Geographic, a retratarem alguns espécimes da nossa sociedade através dos mais vincados estereótipos, ora no seu estado mais natural, com aroma a PVC, ora com um cheiro mais urbano e bairrista, com fêmeas alpha a fazerem de mãe e a revelarem, logo de caras, a razão dos filhos estarem solteiros.

Afinal, nada anormal para quem já utiliza o sentido de observação no dia-a-dia e lida com os frequentadores dos cafés lá da zona, daqueles onde se fala dos romances da bola e onde se "abancam" os "experts" da geopolítica estratégica mundial da batata, frequentadores de transportes públicos onde se ouvem os desabafos de dramalhões infindáveis, enquanto a vizinha do lado lê a TV 7 Dias, ou quando se visitam os cabeleireiros de bairro, onde as minas disparam bitaites com mais rapidez do que o Marcelo lê um livro, revelando uma capacidade multitasking fenomenal ao falar do novo namorado da filha da vizinha, da toilete que a princesa Meghan usa, ao mesmo tempo em que vendem um creme da Oriflame.

A sociedade fast-food pariu o pseudoamor, instantâneo e descartável, superficial, que nos deixa esfomeados e sequiosos de outra coisa qualquer assim que damos a primeira trincada numa atração de borracha. O desespero cria o sonho idílico que o amor pode estar nas coisas simples da vida e que talvez entre ovelhas e cabras se pode afinal encontrar um sapo que se transformará em príncipe, ou que uma sogra poderá ser a fada madrinha que oferecerá o seu mais-que-tudo que não sabe cozinhar ou passar a ferro, mas com um laçarote no topo.

Desenganem-se as alminhas puras e inocentes se realmente pensam que ali poderão encontrar o verdadeiro amor. Este será apenas um meio para atingir os seus fins, e basicamente todos saem a ganhar. Os próprios sabem isso. Aguçados pela sede de audiências, os canais apenas revelam de forma pornográfica (leia-se bruta e explícita), a realidade da nossa sociedade e do nosso querido Portugal…

E manifestam-se então as criaturas virtuosas das redes sociais ou as politiqueiras de serviço, que se degladiam com espadas de cartão face aos moinhos da pimbalhice, enquanto deixam escorrer uma pinguinha de azeite pelas pernas abaixo de tamanha excitação... Afinal, têm pezinhos de barro como qualquer um dos mortais, e também lhes corre um pouquinho de bimbalhice, parolice e pimba pelas veias, debaixo de toda aquela maquilhagem, silicone e roupa de marca. São as mesmas pessoas que não irão escolher um parceiro desdentado e obeso ou não irão querer a sua prole enrolada com atrizes de filmes para adultos. Oh, santa demagogia que abençoaste esta malta.

Desejo-te uma semana cintilante!

Autoria e outros dados (tags, etc)

tic-tac-toe-1777815_960_720.jpg

Viva!

É-nos cada vez mais indubitável que as relações longas e duradouras, os "até que a morte nos separe", são cada vez mais exemplos raros de encontrar. O que era regra virou exceção, e como tal o amor tradicional tem-se desmembrado em várias versões, sendo uma delas o fast love. Falemos então desta nova forma de vivenciar o mais intenso de todos os sentimentos.

O conceito de amor para toda a vida, que o Nicholas Sparks tão bem nos vende, definha-se a olhos vistos; e em seu lugar vão ganhando força as relações efémeras, voláteis e descartáveis, sustentadas no pressuposto de que "se isto não está a dar certo, mais vale partir já para outra". São as tais "relações de consumo rápido", como as define a psicóloga Ana Carvalheira.

De acordo com esta investigadora na área da psicologia e da sexualidade, nos tempos atuais a maioria de nós procura uma pessoa que sirva os seus interesses, que se encaixe na sua personalidade, no seu estilo de vida, nos seus ideais, sonhos e metas; no fundo, que vá de encontro às suas expectativas. O problema é que assim que se chega à conclusão que esta não corresponde àquilo que se idealizou, troca-se. É o tal fast love.


Explica a mesma que por detrás desta exigência redobrada está "um processo de individualização muito marcado". Hoje, prima o "eu" sobre o "nós", o indivíduo sobre o casal. Ora, acontece que uma relação exige investimento, dedicação, motivo pelo qual a esfera do "eu" nunca deverá estar acima da esfera do "nós", sob pena da relação não vincar. Por isso é que atualmente os casais se unem e separam com tanta facilidade.

 

E para piorar ainda mais todo este cenário, existem as novas tecnologias, que através de sites, aplicações e ferramentas de comunicação, potenciam e facilitam relações instantâneas, à mercê de um match. Um simples swipe para a direita pode conduzir-nos ao amor. Esta multiplicidade de meios que a tecnologia põe ao nosso dispor possibilitam interações que de outra forma não aconteceriam. O que facilita sobremaneira a vida deste tal fast love, reforça Ana Carvalheira.

Só que o amor exige envolvimento, nem que seja a prazo. E isso implica objetivos além dos individuais. Lamentavelmente, "hoje em dia, a maior parte dos casais tem imensa dificuldade em apontar objetivos além do viajar", considera a psicóloga.

Outra explicação para este proliferar de amores de consumo rápido deve-se a um menor conformismo em permanecer numa relação infeliz. “No passado as relações eram mais longas, mas não necessariamente mais felizes. Eram as normas sociais e a vergonha em assumir que um projeto de vida falhou que mantinham muitos casamentos de pé. Agora, os jovens não estão dispostos a estar numa relação que deixou de ser feliz só porque parece bem", remata a especialista.

Sabendo que o conceito de fast food transpôs a fronteira da culinária e chegou ao amor, é caso para nos interrogarmos se o regime amoroso que temos vindo a praticar é o mais adequado ao nosso bem-estar emocional, psíquico, social e familiar. A cada um de nós cabe a responsabilidade de adotar aquela que lhe for mais conveniente.

Até breve!

Autoria e outros dados (tags, etc)

22
Fev19

girl-1245835_960_720.jpgViva!

A inspiração hoje anda arisca – talvez esteja deambulando por aí a farejar este cheirinho de verão com que S. Pedro nos agraciou – por isso partilho contigo esta crónica do Vítor Belanciano, recentemente publicada no Público. Tomara tu que a consigas apreciar tanto quanto eu.

É um conceito amplo, variável e pouco claro, porque cada um tem a sua visão sobre o assunto. E, no entanto, falamos de felicidade como se fosse uma evidência partilhada pela larga maioria das pessoas. Não é. Quando muito pode tentar perceber-se o que fazemos para alcançar esse estado.

A acreditar pelo que se vê a procura da felicidade está em alta. Existem cada vez mais pessoas em busca dela. E se o cliente quer, o mercado providencia, principalmente se nas redes sociais todos parecem mais bem-sucedidos do que nós. É só escolher. Reiki. Terapias regressivas. Quadrinidade. Acupunctura. Feng shui. Tarô. Astrologias. Homeopatia. Gurus milagrosos. Posturologia. Ayahuasca. Biorressonância. Teatro terapêutico. Psicoterapias de diversas orientações. Enfim, um sem fim de tratamentos e terapias que prometem orientação psicológica ou espiritual.

Não estou a ser cínico. Se falo disto é porque acredito, como diz a canção, "que tudo ajuda a ser feliz.” Desde que feito com convicção, resiliência, profundidade, solidez e permanência. Com consciência que é um processo de avanços e recuos. E essa é que é a questão. A pressão social para parecermos sempre felizes, a toda a hora, agora, já, é tão grande, e as promessas idílicas são tantas na indústria da ajuda, que se fica com a impressão que as opções vão sendo descartadas à menor decepção, sendo tudo praticado à superfície, de preferência sem chatices, acabando por se criar a ideia de que é possível solidificarmo-nos sem revolver em conflitos.

Antes tínhamos um quadro geracional que receava tudo o que tivesse a ver com saúde mental ou pensar as emoções, com o estigma de que isso seria só para gente doida. Agora, essa tendência, que ainda persiste, coabita com outra tão ou mais nociva, pelo menos em alguns círculos, que é o rodopio constante entre terapias, onde tudo se confunde, o uso e o abuso, a banha da cobra e práticas credíveis, uns comprimidos milagrosos ou a aposta em soluções consequentes, estruturais e de longo prazo.

O quadro que permite isso é a insatisfação permanente. A ilusão de que podemos aceder a momentos de felicidade sem lidar com a tristeza, a ansiedade ou a frustração. Coisas que fazem parte da condição humana e que devem ser compreendidas para melhor lidarmos com causas, sintomas e efeitos. Parece elementar, mas não é. Temos cada vez mais uma sociedade tentada pela medicalização dos comportamentos e dos conflitos da vida, dessa forma tentando-os ocultar, nunca chegando à sua compreensão, única forma de os tentar administrar de maneira saudável.

Dir-se-ia que o cidadão contemporâneo parece perdido, procurando qualquer luz para seguir. E o lema é quase sempre o mesmo. Nada é impossível. Tudo depende de nós. Basta mudar a nossa mente para o que o mundo que nos rodeia se transformar. Existe algo de verdade nisso. A iniciativa individual é fundamental na vida. A questão é quando isso se transforma em ideologia. Faz lembrar dogmas económicos, como o empreendedorismo, que acabam por ser aproveitados para fazer crer que o esforço individual resolve tudo (o desemprego, as desigualdades e a precariedade) o que acaba por ser uma forma de desculpabilizar, ou de não se pensar, sobre o sistema socioeconómico dominante. A mensagem é: altere a sua realidade, porque não será o sistema a fazê-lo por si.

Seria importante perceber que o vai-e-vem emocional da vida tem tanto de raízes individuais como sociais – e ainda se fala tão pouco da depressão, da ansiedade, da solidão e de outras patologias ligadas a alterações económicas, condições sociais ou exigências profissionais. Nesse sentido, o desejo salutar de cada um transformar o seu universo interior talvez pudesse vir acompanhado da aspiração de mudar o mundo de todos. Talvez seja mais complexo. Talvez existam menos prescrições para isso acontecer, mas seria importante. É que isto anda tudo ligado.

Bom fim de semana, meu bem, e aproveita este tempo fantástico para derramares charme por onde passares!

Autoria e outros dados (tags, etc)

people-1230872_960_720.jpg

Viva!

A amizade é um assunto que nunca se esgota. Não sei se alguma vez paraste para pensar como seria a tua existência sem os teus amigos. Eu já, e só de pensar sinto um aperto no peito e um frio na alma.

Uma das coisas que mais acuso nesta vida de forasteira é estar longe dos meus (verdadeiros) amigos, aqueles com quem partilho laços afetivos inquebrantáveis; a minha referência naquilo que sou e, sobretudo, naquilo que aspiro vir a ser.

Sempre fui uma pessoa sociável, não obstante muito reservada num primeiro momento. Era do tipo que chegava num sítio e gastava a primeira meia hora só a cumprimentar quem lá estivesse. Houve, inclusive, uma fase da minha vida em que me orgulhava descaradamente de ser uma das raparigas mais populares do meio. Isso fazia-me sentir importante, apreciada, cobiçada e invejada. Pura ingenuidade! Com o passar dos anos fui-me apercebendo que ser popular passa antes pela qualidade das amizades e muito pouco pela quantidade delas.

Dessa profusão de amizades, nos dias de hoje só sobraram pouco mais de uma dúzia de amigos na verdadeira aceção da palavra: pessoas sinceras e leais com as quais posso, de facto e de direito, contar, sobretudo nos momentos menos bons. Por este, aquele ou aqueleoutro motivo, ao longo dos anos as tais dezenas de amizades foram caindo por terra, as máscaras arrancadas, as verdadeiras faces reveladas e a fealdade dos sentimentos emergida.

A uma frequência acelerada e de uma forma impiedosa, a vida foi-me mostrando que o facto de uma pessoa se dizer tua amiga não quer dizer necessariamente que o seja. Pelo contrário! Lembras-te da estória da pshyco da minha ex-senhoria de que te falei no post Stalkers: cuidado que eles andam aí e quando menos esperares...? Aquele foi tão somente um dos últimos coices desferidos por pseudoamigos; ainda ontem fiquei a saber que um outro a quem ajudei a conseguir trabalho na mesma instituição onde eu presto serviços está a fazer por ficar com o meu lugar. Com amigos assim há matéria para "cronicar" o resto da vida...

É justamente a esse tipo de humanos que eu chamo de amigos acessórios, perfeitamente dispensáveis, mas necessários quando precisamos enfeitar a nossa vida social. Já houve uma altura em que, no auge da desilusão, os bani completamente da minha convivência. Houve outras em que, no pico da solidão, prefiri tê-los por perto a não ter ninguém. Hoje, mais sábia, menos ingénua e muito mais calculista, prefiro tê-los por perto quando me convém e mandá-los à merda quando não. Por algum motivo se diz: "Mantém os amigos perto e os inimigos ainda mais!"

Hoje em dia me dou com quem quero, quando quero e nos termos que eu definir. Não tenho qualquer escrúplulo em reclamar a presença tipo de amigos se isso for do meu interesse, nem que seja uma simples noitada ou um favor. Quando não me servirem para coisa nenhuma reduzo-os à sua insignificância. 

Carregada de razão está aquela máxima de que "há amigos e amigos". Os amigos acessórios são perfeitamente dispensáveis, mas necessários quando, à falta de coisa melhor, queremos enfeitar a nossa vida. No fundo, são uma espécie de bobos da corte a quem confiamos a missão de nos entreter quando estamos aborrecidos, deprimidos ou carentes.

Até breve!

Autoria e outros dados (tags, etc)

binoculars-2474698_960_720.jpg

Viva!

Single mine, vai uma pausa para pormos a conversa em dia? É que quero conversar contigo sobre um assunto que venho adiando há já algum tempo: stalking, para mim uma das palavras do momento na atual conjuntura das relações interpessoais.

A maioria de nós quando ouve essa palavra associa-a automaticamente ao contexto amoroso; ora acontece que o stalking extravasa a fronteira do amor. Eu, por exemplo, há coisa de um mês, passei por uma situação perfeitamente encaixável no seu conceito, ao ponto de ter que bloquear nas redes sociais, mudar de contacto telefónico, alterar o meu percurso e afastar-me de pessoas em comum.

 

Antes de entrar em mais detalhes, convém dizer que por stalking, perseguição ou importunação gravosa (na linguagem jurídica) entende-se os comportamentos de assédio persistente que visam perturbar, atemorizar e alarmar a vítima. Geralmente, o perseguidor partilha uma ligação com a vítima e o que origina este tipo de comportamento é um "rompimento indesejado" e consequentemente, um desejo de reconciliação – que acaba muitas vezes em vingança.

O parágrafo anterior narra com uma precisão alarmante o tal episódio de que te falei há pouco e que passo a descrever da forma mais sucinta que conseguir. 

 

Durante oito meses, vivi num apartamento que pertencia a uma conhecida, a quem cheguei a considerar amiga, ao ponto de irmos ao ginásio, sairmos para a noite, trocarmos confidências e tudo o mais que costuma pautar uma relação de convivência próxima.

 

Quando me mudei para a casa dela, juntamente com outra rapariga com quem já partilhava alojamento há alguns anos, ficou acordado entre as partes que o valor da renda seria simbólico, já que nenhuma de nós tinha condições de pagar o valor do mercado: ela auferia um salário que rondava os 500 euros e eu os 400.

 

Em agosto passado essa colega acabou por emigrar, ficando eu a residir sozinha na casa. Dado que, mesmo tendo arranjado um trabalho com um salário digno, não tinha como assumir na íntegra o valor da renda, ficou assente que iria partilhar a habitação de dois quartos de dormir e dois wc’s com outro inquilino, mantendo cada um a sua própria casa de banho.

 

Ora acontece que essa pseudoamiga/senhoria, à última da hora, decide aceitar não um mas sim dois inquilinos, sendo um deles do sexo masculino, quando desde a primeira hora deixei claro que não me agradava de todo essa possibilidade. Se eu quisesse dividir casa com um gajo, arranjava um para mim, certo? Como se não bastasse, ainda teria que passar a partilhar wc, esta segunda condição ainda mais penosa que a primeira.

 

Por sentir que já não tinha condições para continuar naquela casa, tive a infeliz ideia de ser sincera com essa pseudoamiga, que também era senhoria, comunicando-lhe que tinha decidido procurar outro sítio para viver. Mama mia, o que eu fui fazer. A dita cuja, numa reação absolutamente tresloucada, gritou-me, chamou-me de tudo e mais alguma coisa (mentirosa, mau-carácter, desleal e egoísta) e deu-me um prazo de 10 dias para deixar a casa. Só faltou bater-me.

 

Como isso aconteceu no dia 21 de dezembro, poucas horas antes da minha ida a Paris, de onde regressaria somente no dia 2 de janeiro, na prática a fulana deu-me dois dias negativos (sim leste bem) para arranjar um sítio para onde ir. Não obstante todos os meus apelos, numa das posturas mais malvadas que já tive o desprazer de presenciar num ser humano, ela foi irredutível: tinha até o fim do mês para "tirar as minhas coisas e a minha pessoa da casa", palavras da própria.

 

Em pânico, e a conselho de pessoas próximas, pedi perdão (mesmo achando que não tinha feito nada de errado), praticamente implorando por um prazo razoável para deixar a casa. De nada resultou. A dita cuja queria sangue, queria castigar-me por ter-me atrevido a contestar o seu desmando, queria ver-me na merda, sem casa, sem trabalho (estava em crer ela que a partir do dia 31 de dezembro estaria eu desempregada), sem família e sem amigos a quem recorrer, ou seja, sem ninguém que me amparasse naquela hora de aflição.

 

Mesmo me sabendo junto dos meus para passar a mais sagrada de todas as celebrações, o Natal, continuou implacável na sua sede de vingança. Exigiu que alterasse a data do meu regresso de modo a cumprir o prazo dado. Quando percebeu que eu não iria abrir mão de estar com a minha família, ao invés de estar com a dela (como era sua intenção), endureceu o ataque. Passou a enviar-me mensagens cada vez mais perturbadoras, ao ponto de eu preferir dormir num hostel quando regressei à cidade por medo que me fizesse algum mal.

 

Só para teres uma ideia da psicose dela, digo-te que primeiro deu-me até 15 de janeiro para sair da casa, depois até 4 de janeiro e por fim até meio-dia do dia 3; tudo isso em menos de 24 horas. Não satisfeita, e furibunda por eu não reagir aos seus ataques, exigiu que lhe transfirisse 150 euros de "despesas que só a mim cabiam", quando o combinado foi tudo incluído no valor da renda. Pelo meio, enviava mensagens a dizer que sempre me considerou uma amiga e que me desejava tudo de bom na vida, que a minha atitude de não lhe responder às mensagens era inaceitável. Enfim... o seu assédio obsessivo assumiu tal proporção que, temendo pela minha integridade física, recorri a um advogado para me orientar no processo de apresentar queixa por assédio moral e importunação gravosa.

 

Finalmente, dois dias depois de regressar a Lisboa, no dia 4 de janeiro, deixei a casa, não sem antes receber outra mensagem a avisar-me para não “levar nada que não me pertencia”. Quanto mais desprezo eu lhe dava – nunca respondi a nenhuma das suas mensagens – mais enfurecida ela ficava e mais violento se tornava o próximo ataque. Com o passar das investidas era-me cada vez mais óbvio que o que ela queria era a minha atenção, que lhe desse munição para continuar com os bombardeios, no fundo que lhe desse um pretexto para justificar a sua postura desprezível. Queria por tudo que eu me rebaixasse ao seu nível. 

 

Na altura não percebi isso; só depois quando fui pesquisar sobre o assunto é que encontrei uma explicação científica que refere que "as vítimas passam a ocupar uma importância muito grande no espaço mental do stalker que quer a sua atenção e, por vezes, alimenta o desejo de causar dano", in Stalking - Boas Práticas no Apoio à Vítima.

 

Só que a minha atenção ela não teve e nem nunca mais terá. Em momento algum revidei nem aceitei as suas provocações; primeiro porque temia as represálias, depois porque cheguei à conclusão que de mim ela não merecia absolutamente nada além de um profundo desprezo, pelo que me fez, mas sobretudo pelo tipo de pessoa que revelou ser: abjeta. 

 

Essa psicótica, desequilibrada, histérica e conflituosa causou-se tamanho abalo emocional que estive dias e dias sem conseguir dormir nem comer. De cada vez que recebia uma sms ficava num estado de nervos que, ainda antes de me instalar na casa nova, tratei de mudar o meu número de telefone.

 

Como o texto já vai para Atlas, o resto desta estória sórdida terá que ficar para uma próxima oportunidade. Antes de me despedir deixo-te com o perfil dos vários tipos de stalkers, para que consigas identificá-los antes que te aconteça o mesmo que a mim:

- Stalker rejeitado: é o tipo mais intrusivo e com mais probabilidades de se tornar violento. Pratica a perseguição numa tentativa de reatar uma relação terminada ou de se vingar da vítima, muitas vez um/ ex-companheiro/a.

- Stalker ressentido: a sua motivação é a vingança, sendo que recorre muitas vezes a ameaças, mas raramente à violência. O objetivo da perseguição é a intimidação da vítima, que geralmente já é sua conhecida.

- Stalker em busca de intimidade: o assédio persistente decorre de um ambiente de solidão e de ausência de um parceiro. As celebridades costumam ser as vítimas mais frequentes deste tipo de stalker.

- Stalker cortejador inadequadoperseguição inadequada da vítima com o objetivo de criar um relacionamento com a mesma.

- Stalker predadora perseguição é um dos estágios iniciais da relação que culmina em agressão sexual. Este é geralmente um desconhecido da vítima.

 

Até à próxima e que o universo te livre dos stalkers!

Autoria e outros dados (tags, etc)

fantastic-woman-a-2017-001-young-woman-against-til

Viva!

 

Na expectativa de que a tua entrada em 2019 tenha sido infinitamente mais auspiciosa do que a minha, eis-me de volta ao teu convívio, recheada de episódios de drama, trama, mesquinhez, vingança, assédio e tudo de mais sórdido que imaginar possas. Prometo contar tudo mal consiga organizar as ideias e digerir o vendaval que se abateu sobre a minha vida nestas últimas duas semanas.

 

Por ora permite-me partilhar contigo esta crónica, redigida em plena sala de embarque a caminho de Paris, sobre como sobreviver no panorama atual das relações interpessoais. No rescaldo de mais uma chapada da vida, desta vez pelas mãos de pessoas a quem dediquei afeição, tempo, paciência, respeito e consideração, ocorreu-me que faz aqui precisão um manual de sobrevivência para o trato social, em geral, e para as relações interpessoais, em particular.

 

No intuito de evitar que passes por aquilo que eu volta e meia passo, deixo-te aqui alguns conselhos sobre como gerir relações, sejam elas sociais, profissionais, familiares, amorosas ou até sexuais.


Dica 1 - Não dês demasiado de ti
À primeira leitura esta recomendação pode parecer ultra antissocial, mas se formos analisar com cuidado veremos que não o é de todo. Quanto mais damos de nós, quantas mais informações pessoais fornecemos aos outros, mais poder de nos ferir os sentimentos lhes conferimos. Uma vez na posse de dados que nós próprios lhes facultamos (ainda que na maior das inocências), muito são aqueles que não demonstram quaisquer escrúpulos em usá-los a nosso desfavor.

 

Dica 2 - Nas costas dos outros vê as tuas
Nas costas dos outros faz-te a ti própria o favor de ver as tuas. Se conheces quem fale mal dos outros pelas costas e na frente dos mesmos é só sorrisos e mimosices acautela-te que um dia será a tua vez de estar nessa posição. Pessoas assim são mais falsas que notas de 2 euros, pelo que não são amigas de ninguém, por mais que tentem convencer-te do contrário.

 

Dica 3 - O que os outros pensam de ti é problema deles
Todos nós temos opinião formada sobre pessoas e coisas, embora uns admitam e outros, por uma questão de pudor ou hipocrisia, nem por isso. Essa opinião tanto pode ir de encontro à realidade como pode induzir-nos em erros de perceção gravíssimos, dos quais poderemos nos lamentar pelo resto da vida. Com isso quero deixar claro que só te deves ralar com a opinião dos outros em relação à tua pessoa e/ou conduta se nela te reveres. Caso contrário, aciona o travão de mão, mete o pisca e encosta-os a um canto da tua vida, já que desse tipo de gentinha o melhor mesmo é manter distância.

 

Dica 4 - Vemos nos outros o reflexo de nós mesmos
Perante os que passam a vida a vomitar na cara dos outros tiradas do tipo: "És isto ou és aquilo", tem em consideração o conceito esotérico de espelho invertido, no qual a pessoa vê nos outros o seu próprio reflexo. Portanto, de agora em diante sempre que alguém te disser que és mau-carácter, egoísta, mentirosa, ingrata, desleal e por aí fora, fica a saber que quem é tudo isso não és tu, mas sim essa pessoa. Afinal, quem melhor que um criminoso para saber reconhecer outro?

 

Dica 5 - Prima por uma relação cordial, porém distante q.b.
Darmo-nos bem uns com os outros é recomendável – imperativo até – na interação social. Além de constar do manual da boa educação, é uma postura que nos facilita muito a vida e nos permite coabitar pacificamente com os nossos semelhantes. Contudo, recomendo que mantenhas a distância mínima de segurança, sob pena de seres abalroada por quem não conhece ou não respeita as regras da (boa) conduta social.

 

Dica 6 - Presta atenção à forma como tratam os outros
Um dos sinais mais flagrantes do temperamento e da índole de alguém revela-se quando está chateada/nervosa, sobretudo pela forma como se dirige aos outros, especialmente aqueles que considera o elo mais fraco da dinâmica. Se conheces quem fale mal para os outros, grite, insulte e humilhe, não tenhas dúvida de que à primeira oportunidade tratar te á de igual modo.

 

Dica 7 - Destemperamento combate-se com desprezo
Perante personalidades destemperadas, que fazem e acontecem só porque sim, a melhor estratégia consiste em evitar ao máximo o confronto verbal (ou físico, que também acontece). Por melhores que sejam os teus argumentos e as tuas intenções este tipo de pessoa vai encontrar sempre forma de te fazer sentir miserável. Se não for pela experiência, vence-te pelo cansaço, acredita. Simplesmente, não vale a pena.

 

Dica 8 - Desculpas não se pedem evitam-se
Há uns tempos escrevi precisamente sobre gente que dispara a matar para só depois tratar dos feridos. Se conheces quem passa a vida a destratar os outros, seja na forma de falar seja na forma de atuar, e depois age como se nada fosse ou pede desculpas com aquele arzinho de peru na véspera de Thanksgiving Day fica a saber que pessoas assim dificilmente se arrependem das suas atitudes. Pois se assim fosse não aprontariam novamente, certo? Quando aprontam, têm por hábito adotar uma postura mansa e humilde pelo tempo suficiente até baixares a guarda e poderem desferir-te novo golpe. A não ser que tenhas vocação para saco de pancada, põe-te a pau.

 

Dica 9 - Quem gosta de falar não está para ouvir os outros
A experiência mostra que quem fala muito adora ouvir o som da própria voz. O que, por exclusão das partes, significa que não gostam de ouvir a voz dos outros. Assim sendo, dificilmente permitem que possamos expor o nosso ponto de vista, sobretudo se estes não vão de encontro aos seus. Bem podes tentar tentar tentar mas vais acabar subjugado pelo seu poder de absorvência e mememismo (o tal me me me de que também já aqui falei). O meu conselho é que perante pessoas assim fales o essencial (quando possível) e do seu bla bla blá retenhas apenas as informações que te forem relevantes. O resto é palha, e a não ser que sejas herbívoro não precisas dela para nada.

 

10 - Guarda a tua sinceridade para quem a saiba apreciar
Para último guardei a questão da sinceridade, honestidade, transparência ou frontalidade, como lhe quiseres chamar. Não conheço quem não apregoe serem estas as qualidades que mais valorizam no ser humano. No entanto, comprova a prática, escassos são os que realmente a praticam sem intenções dúbias e menos ainda os que aceitam serem dela alvo. Há pessoas que só gostam da sinceridade quando esta lhes massageia o ego. Nas vezes que assim não é, caem-te em cima feitos devoradores da morte (referência às personagens da saga Harry Poter). Para te salvaguardares de dramas desagradáveis, escolhe com esmero aqueles com os quais te podes dar ao luxo de seres absolutamente transparente, sob pena de seres ostracizada ou banida do convívio social. Dizeres o que pensas e pensares o que dizes pode fazer de ti vilã, dando azo a que personas mal intencionadas possam assim vestir a pele de vítima.

 

Bem mais teria a escrever sobre o assunto, mas como o texto já vai longo e a tripulação exige que se desliguem os aparelhos electrónicos, despeço-me com aquele abraço amigo de sempre.

 

Um bom ano e até breve!

Autoria e outros dados (tags, etc)

10
Dez18

12715357_1682669168681177_5655951594732605378_n.jp

Viva!

 

Parafraseando o apresentador do Alta Definição, intenta esta crónica descortinar até que ponto os olhos são, de facto e de direito, o espelho da alma. Cansados estamos nós de ouvir tal coisa, sem que ninguém nos demonstre, por a+b, qual a percentagem de sinceridade que cada um de nós deposita do seu olhar.

 

Sequer atrevo-me a questionar tal dito popular, até porque a sua veracidade está ao alcance da nossa vista. O que questiono é a qualidade desse reflexo, absolutamente refém do estado de manutenção/conservação do espelho e da mestria de cada ser em deixar transparecer, não só o que lhe vai na alma, mas essencialmente o que lhe apetece e lhe convém. Esta lógica não está a fazer muito sentido para ti? Não te apoquentes, que já desconstruo esta minha teoria.

 

Antes de mais, permite-me esta pequena reflexão: olhamos e somos olhados o tempo todo, desde o dia em que nascemos até o dia em que damos por concluída a nossa missão carnal nesta vida. Mais fácil conseguimos controlar todos os demais sentidos – que já não são apenas cinco como nos foi ensinado toda a vida – do que o nosso olhar. Podemos domesticá-lo, espartilhá-lo e até censurá-lo, mas subjugá-lo por completo, jamais! Agrada-nos? Olhamos! Desagrada-nos? Olhamos na mesma! E esta máxima aplica-se a pessoas, objetos, lugares e acontecimentos.

 

Sabes porque isso acontece, porque é tão difícil deixarmos de olhar para o quer que seja? Porque o olhar é o meio mais imediato e eficaz, no fundo instintivo, de que dispomos para interagirmos com o que nos rodeia. Quando olhamos, olhamos o mundo. No caso das pessoas, que é para onde pretendo direcionar esta crónica, quando olhamos para os seus rostos vemos lá refletidos gerações passadas, tradições, culturas, realidades, crenças, valores, experiências, vontades, expectativas, sonhos e futuro. E sentimentos, acima de tudo. Quando olhamos para o mundo, através das pessoas, vemos um mundo de afetos, de gentes e locais inesquecíveis. Um mundo imenso, infinito, profundo, misterioso e, muitas vezes, inescrutável.

 

É neste contexto que a tal máxima de que os olhos são o espelho da alma faça todo o sentido. Eu acredito que de facto assim seja. Só que existem almas tão imundas, tão carecidas de limpeza, restauro e polimento, que o seu reflexo de nítido pouco ou nada tem, ao ponto de dificilmente conseguirmos descortinar o que realmente lhes vai na alma. No fundo, não passam de almas encardidas, algumas com nódoas reversíveis outras nem por isso.

 

Ao longo da minha vida, tive o desprazer de cruzar com algumas delas. A umas topei logo de caras qual a real natureza da sua índole; a outras, para mal dos meus pecados, só me apercebi demasiado tarde, quando a fatura já era demasiado alta para conseguir liquidá-la a pronto pagamento. Acredito que a pouca experiência de vida e uma bondade inata tenham sido nessas alturas péssimas conselheiras.

 

Hoje sei que os olhos nem sempre dizem a verdade. Também sei que muitos dominam a arte de gerir o olhar consoante a sua conveniência. De forma matreira, astuciosa e até perversa, são capazes de nos envolver numa sequência de falsas boas intenções, das quais só nos apercebemos demasiado tarde, quando já estamos irremediavelmente enredados nas suas teias de inverdades, máscaras e manipulações.

 

Remato o assunto com o repto: dizem os teus olhos aquilo que sentes e sentem os teus olhos aquilo que dizes? Se a tua resposta for sim, dá cá mais cinco que és um humano premium. Caso contrário, se calhar é caso para repensares a tua forma de estar na vida. 

 

Boa reflexão e até à próxima!

 

P.S. - Não te esqueças que já só faltam 5 dias para o anúncio do blog do ano na categoria Sexualidade. Se ainda não me deste o teu voto, toca a despachar e deposita-o já aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

12-kinds-of-kindness_feature-1000x641-1.jpg

Viva!

 

Um texto do Sarcasticamente Falando inspirou-me a escrever sobre o quão perigoso (e doloroso) é ser-se bom nos dias que correm. Numa época em que culto da moral elástica parece angariar cada vez mais seguidores, valores como honestidade, sinceridade, lealdade, solidariedade e respeito pela dignidade alheia quase que destoam dessa realidade invertida.

 

Hoje em dia, mais fácil nos surpreendemos com um gesto de bondade do que com o contrário. A sensação que me dá é que o que é suposto ser regra - sermos bons uns para os outros - passou a ser exceção, como se habitássemos um universo paralelo, com os valores todos trocados.

 

Quem nunca foi acometido por um genuíno sentimento de incredulidade quando bafejado por uma ação bondosa, custando-lhe acreditar em tamanha sorte, que comente agora ou prossiga com a leitura. Nessas ocasiões, a nossa primeira reação verbal costuma ser algo do tipo: "Não estava nada à espera", num claro sinal de que estamos mais familiarizados (logo confortáveis) com a ausência de bondade do que com a dita cuja propriamente; quando deveria ser precisamente o contrário.

 

Num mundo cada vez mais distorcido de valores e de princípios, torna-se um intrincado quebra-cabeças saber em quem confiar e em quem depositar as nossas melhores expectativas. Mais do que querer confiar, precisamos fazê-lo para nos sentirmos em paz connosco. Como tal, acabamos, mais do que é suposto, com os sentimentos feridos, pelo simples motivo de que avaliamos os corações dos outros à luz do nosso próprio. Daí que ser bom demais tornou-se perigoso. E inglório.

 

Existe, no contexto atual, uma necessidade de se dar bem em todos os palcos em que se atua, mesmo que por meio de vantagens indevidas, de caminhos duvidosos, passando por cima dos outros, como se, de facto, os fins justificassem quaisquer meios. Nessa luta desenfreada pelo sucesso, a lealdade e o compromisso com o outro acabam por ser algo a não se prender, pois o que importa mesmo é galgar os degraus da ascensão social, da progressão laboral e da realização amorosa, fazendo com que as relações humanas se revelem cada vez mais frágeis e ocas.

 

Ainda assim, muitos são aqueles que fazem questão de manter a fé na bondade alheia e a esperança numa sociedade mais justa, mais igualitária, mais solidária, mais digna, no fundo, mais humana. São esses os que se recusam a abrir mão da crença na amizade verdadeira, no amor desinteresseiro, na honestidade e na integridade. Almas que ainda persistem no propósito de ser feliz sem magoar, sem trair, sem maldizer, sem prejudicar, colocando-se no lugar das pessoas com as quais convivem.

 

Eu me assumo como uma dessas pessoas que, por mais que apanhem da vida e levem rasteiras dos outros, permanecem fiéis à sua essência, que é ser bondoso. Não porque acredito na recompensa divina (longe disso), mas porque acredito que o mundo seria um lugar infinitamente melhor para se viver se todos nós formos genuinamente bons uns com os outros.

 

Atenção, que com ser bom não me refiro a ser um santo, que tudo atura, tudo aceita, tudo suporta e tudo perdoa. Com ser bom refiro-me a ter respeito pelos outros, a ajudar quem precisa, a não prejudicar ninguém a custo zero, a não trair, a não mentir e a não intentar contra o bom nome e a honra alheia.

 

Despeço com um até à próxima!

 

P.S. - Na sexta faço anos, por isso vai pensado na minha prenda, que faço questão de receber.

Autoria e outros dados (tags, etc)

im-sorry-hands.jpg

Viva!

 

Quem me conhece sabe que não sou pessoa de pedir desculpas a torto e a direito, na mesma proporção que não gosto que me peçam desculpas por tudo e por nada. A razão por detrás desta minha forma de estar na vida assenta no dito popular de que desculpas não se pedem, evitam-se. 

 

Duvido genuinamente que um pedido de desculpa, por mais sentido que seja, é a melhor estratégia para quando fazemos asneira, sobretudo naquelas alturas em que ferimos os sentimentos alheios ou prejudicamos alguém. Abro aqui um parêntesis para frisar que a deliberação do ato praticado não está sendo aqui tido nem achado.

 

Claro que, como humanos que somos, erramos. Eu erro, tu erras, ele/erra, nós erramos, vós errais, eles erram. Contra isso nada a argumentar, pois é da nossa natureza. Dado que todos erramos, a minha forma de encarar as coisas leva-me a assumir que o termo mais adequado será "perdão" e não "desculpa". Quando dizemos a alguém "perdoa-me", além de arrependimento, demonstramos humildade e um profundo respeito pelo outro. Para quem tem dificuldade em proferir essa expressão, um "sinto/lamento muito" pode ser igualmente eficaz. 

 

Quando dizemos "des+culpa", como a própria composição da palavra indica, estamos a distanciar o sujeito da ação, ou seja, estamos a separar o eu do ato praticado. Para mim, isso mais não é do que uma tentativa patética e infantil de nos isentarmos de toda e qualquer responsabilidade pela falha praticada. Como se a "merda" que fizemos fosse mais uma ação que correu mal do que propriamente uma consequência direta de algo que poderia ter sido evitado caso tivéssemos tido mais atenção às consequências.

 

Quando o pedido de desculpa traz atrelado o "não foi por mal", aí é que fica o caldo entornado, pois disparo à queima-roupa: "se não foi por mal foi por que raio então?"

 

Uma das coisas que eu mais prezo na interação social é a capacidade que cada vez menos pessoas demonstram em por-se no lugar do outro, antes de agir. Pensar em como eu próprio me sentiria se o que estou prestes a fazer/dizer viesse do outro. O meu respeito pelos sentimentos alheios, aliado a uma aversão insana pelo confronto verbal, é de tal ordem que prefiro ferir os meus sentimentos a ter que ferir os alheios. Como tal, passo a vida num sofrimento constante, já que os outros ou não se apercebem desta minha postura e tomam-me por idiota ou se apercebem e mesmo assim levam a deles avante na expectativa de que não serei capaz de os enfrentar.

 

Quando mais jovem, não deixava passar nada – como se diz na gíria, não levava desaforro para casa. Quanto desgaste emocional, quantas desavenças, quantas recriminações (infligidas ou autoinfligidas), quanto desperdício de tudo e mais alguma coisa. Com a maturidade, rendi-me à evidência de que mais importante do que ter razão é ter paz.

 

Por isso, fui-me calando, deixando passar, relevando, justificando. Só que essa opção, como tudo na vida, também tem o seu preço, muitas vezes mais alto que a primeira. Só eu sei o quanto me corrói a alma cada vez que "engulo um sapo", pois não é da minha personalidade "comer e calar". Assola-me uma cataplana de sentimentos como angústia, inquietação, revolta, injustiça, cobardia e culpa. Sim culpa. Sabe-se lá porque carga de água (por acaso até sei), sinto-me culpada mesmo quando são os outros a falharem comigo.

 

A esta altura da vida, já nem sei qual a melhor tática: enfrentar ou resignar; refilar ou revelar; argumentar ou calar; contestar ou aceitar. Dizem os mais ponderados que a solução encontra-se algures pelo meio, só que eu ainda não consegui reunir skills suficientes para a pôr em prática com sucesso.

 

Na firme convicção de que ainda conseguirei atingir esse nirvana, remato esta crónica com um profundo pesar por constatar que pedir desculpa virou rotina. Usa-se por tudo e por nada. Portanto, ao invés de pedirmos desculpas, evitemos precisar fazê-lo, pois quando eliminamos as desculpas passamos a extinguir as razões pelas quais as pedimos!

 

Bom fim de semana e até breve!

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Blog do Ano




Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog