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Crónicas, contos e confissões de uma solteira gira e bem resolvida que (ainda) não cumpriu o papel para qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar pulos de alegria? Provavelmente, nem uma coisa nem outra!

27
Fev20

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Viva!

Sobre o tema do momento na atualidade portuguesa, a eutanásia, tanto já se disse e muito ainda haverá a ser dito. Por razões várias este é um assunto que a todos toca e ao qual, por mais que assim o queiramos, dificilmente conseguiríamos permanecer alienados ou imparciais. Por eu não ser exceção, eis-me aqui a dar o meu, ainda que modesto, contributo para uma reflexão proporcional e imparcial.

O pontapé de saída para este embate deve ser dado por esta questão crucial, sobre a qual é imperativo que reflitamos antes de assumirmos uma posição, seja ela pró ou contra: a quem pertence o direito à vida, ou seja, a quem cabe decidir sobre ela? Se a vida é minha, nada mais lógico e legítimo que a mim deva pertencer o direito de decidir sobre ela.

Dito isto, nada mais previsível que eu seja a favor da eutanásia, não me coibindo em assumi-lo publicamente. Esta minha posição prende-se, acima de tudo, com a inabalável convicção de que todo e qualquer ser humano tem o direito à livre escolha, direito esse que está salvaguardado nas duas constituições que norteiam a minha identidade enquanto cidadã: a do país que me viu nascer e a do país que me vê residir. Para mim esse direito está acima de qualquer referência moral, religiosa, política, filosófica ou ideológica.

Como poderemos falar numa democracia plena quando ao cidadão é-lhe negado o direito a decidir como e quando quer dar por terminada a sua permanência nesta vida? A nossa chegada ao mundo afigura-se como obra do acaso, ao qual a nossa vontade parece ser refém. Que ao menos possamos escolher a forma como morremos, ou seja, que possamos decidir como e quando vamos partir. Que possamos exercer o direito de escolher morrer quando e como acharmos conveniente e não fruto do acaso. Ao menos que possamos partir deste mundo com dignidade, serenidade e assertividade.

Desinteligente é, portanto, a posição de muitos em evitar o inevitável, em adiar o inadiável, em travar o intravável. Poder de escolha rima com Estado de direito democrático e Estado de direito democrático rima com liberdade de cada um decidir o que é melhor para si (desde que não prejudique ninguém). Que me contradigam os politólogos e filósofos da moral alheia quando afirmo que não reconheço um estado de pleno direito democrático sem a liberdade de escolha do seu povo. Não poder decidir sobre algo tão pessoal, tão indelegável, tão intransferível, é, na minha perspetiva, o mesmo que não poder exercer o direito à plena cidadania.

Dos argumentos contra, o mais inflamado é o que está acoplado às convicções religiosas, especialmente a dos católicos, crentes de que ao decidirmos quando devemos morrer estaremos, de forma petulante e desleal, a usurpar o poder divino, a quem reconhecem o direito absoluto sobre a vida e a morte. Se Deus não nos queria a decidir sobre o que quer que fosse porque nos dotou então do livre arbítrio?

Mais gritante do que a perda da vida é a perda da vontade de viver. Existem várias formas de se morrer e nem todas elas implicam a primeira premissa. Sabemos todos que existem pessoas em atroz sofrimento, cuja esperança de melhoria há muito que extrapolou a racionalidade coerente. Estas, para além de sofrerem horrores, fazem sofrer os seus, sem falar que, ao verem prolongado o tratamento que apenas os vai ajudando a adiar o inevitável, consomem ingloriamente os recursos humanos, financeiros e hospitalares indispensáveis àqueles com reais possibilidades de recuperação.

Claro que não devemos legitimar a morte à primeira curva da vida (como escreveu há dias a minha amiga AB), à primeira bofetada, por mais violenta que esta seja. É para isso que existem as comissões de avaliação. É para isso que servem as condições estipuladas pela lei. Todos eles são fatores extremamente relevantes, válidos, mas que jamais deverão prevalecer sobre a vontade e a liberdade que nos assiste de decidir sobre a própria vida.

A existência é minha, a enfermidade é minha, a dor é minha, a desesperança é minha, portanto, a decisão deve ser minha. Minha vida, minha escolha. Hoje e sempre!

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Viva!

 

Os aeroportos sempre despertaram em mim um fascínio inexplicável. Adorei-os ainda antes de adentrar por uma sala de embarque. A primeira vez que isso aconteceu, apoderou-se de mim uma comoção avassaladora. Partia rumo a Portugal para tirar um curso superior. Já lá vão mais de duas décadas.

 

Desde essa altura que estes gigantescos albergues de partidas e chegadas são-me sinónimo de aventura, adrenalina, descoberta, reencontro e esperança. Bastava transpor aquelas portas automáticas para se apoderar de mim uma felicidade indescritível, prenúncio de que estava a caminho de algum sítio, escolhido por mim com todo o gosto e expectativa. Nunca houve voo atrasado, bagagem extraviada, perdida ou danificada, fila ou pessoas mal humoradas capazes de pôr em cheque essa genuína alegria de estar num deles. Mesmo quando só ia acompanhar quem partia ou acolher quem chegava.

 

Hoje, o sentimento que me assola é exatamente o oposto. Hoje o aeroporto, o mesmo que sempre me fez sentir tão bem, afigura-se a um corredor da morte. Hoje faço a viagem mais triste de sempre, a caminho do funeral do meu pai, vítima de um ataque cardíaco fulminante aos 64 anos. Hoje queria estar em qualquer outro lugar que não aqui onde me encontro a escrever para ti, numa última tentativa de fintar o desespero e não sucumbir ao pranto que teima em não se deixar fintar.

 

Hoje sei que, daqui para a frente, nunca mais voltarei a ver um aeroporto da mesma forma. Hoje sei que nada será como antes. Hoje sei que a minha vida mudou para sempre!

 

Feliz Páscoa, palavra derivada do latim e, por sua vez, do hebraico, que significa “passagem”. Simboliza a libertação do povo egípcio e a ressurreição de Cristo. Simboliza, igualmente, a passagem das trevas para a luz, da escravidão para a liberdade, da morte para a vida. Afinal, o bem vence o mal!

 

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02
Dez16

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Ora viva!

Não consigo dormir, nem mesmo sob o efeito dos fármacos altamente sedativos que estou a tomar por causa do desvio na cervical. É este o motivo que me traz aqui a esta hora, deveras surpreendente. Com este artigo tento extravasar o que me vai na alma.

 

Ontem à noite, no rescaldo do meu aniversário – tinha cá em casa um pretendente que fez questão de me vir dar os parabéns – recebi a notícia de que o irmão do meu pai faleceu, vítima de doença prolongada. Ainda não sei qual a doença que o vitimou, apenas sei que se encontrava, há já algum tempo, em tratamento nos Estados Unidos. Não éramos muito próximos, tenho que assumir. Só para teres uma ideia, nos últimos 20 anos, só o devo ter visto duas na vida.

 

Emigrou era eu um protótipo de gente, nas vezes que foi de férias não me lembro de os nossos caminhos se terem cruzado; anos depois foi a minha vez de atravessar o Atlântico; entre encontros e desencontros só voltei a vê-lo há coisa de sete anos. Por tudo isso, não posso dizer que esteja devastada com o seu passamento. Ainda assim é uma pessoa que morre, alguém em cujas veias corria o mesmo sangue que o meu; alguém que era pai, marido, irmão, filho, tio e amigo; alguém que já não vai fazer parte da vida dos seus entes queridos.

 

Ainda assim, é óbvio que estou abalada com o falecimento dele. Ainda não consegui reunir estofo emocional para ligar ao meu pai. Sei, pelos meus irmãos, que ele está arrasado – como era de se esperar –, até porque, fisicamente, ele e o meu tio pareciam gémeos autênticos.

 

Não consigo definir o meu estado de espírito. Lamento – mesmo! – a morte dele. Afinal é o meu tio. Por outro lado, não sofro como acho que é suposto sofrer quem perde um familiar tão chegado. Confesso que me sinto um tanto culpada por não ter conseguido derramar uma única lágrima, não obstante esse aperto no peito com que estou desde que tomei conhecimento da notícia.

 

Penso que seria hipocrisia da minha parte forçar uma dor que não me é legítima, que não me é devida, que não me é sentida, já que não havia conexão sentimental com este parente. Como poderia, se mal o conhecia e pouco privei com ele? Sequer conheço os meus primos, filhos dele, e menos ainda a esposa.

 

A morte é algo que (ainda) não se fez muito presente na minha vida. Ainda bem! Claro que já convivi – demasiadas vezes até – com o desaparecimento físico de pessoas conhecidas, algumas bem queridas. Tirando a de um ex, talvez, o grande amor da minha vida, nunca senti o verdadeiro e arrasador efeito da dama de negro, nem mesmo aquando do falecimento da minha avó materna, que só me lembro de ter visto uma vez na vida. Vida de crioulo é assim mesmo: por causa da emigração, não se chega a conhecer ou conviver com parentes, alguns bem próximos.

 

Enfim… para todos os efeitos estou de luto e em recesso sentimental. E tu, meu bem, qual a tua (não) relação com a morte? Gostava de saber o que simboliza ela para as outras pessoas, já que, para mim ela representa algo a ser temido – obviamente – mas pouco presente.

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