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Crónicas, contos e confissões de uma solteira gira e bem resolvida que ainda não cumpriu o papel para o qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar pulos de alegria? Provavelmente, nem uma coisa nem outra!

hands-1222866_1920.jpgOra viva!

Contigo partilho hoje a segunda parte do conto A humanidade, a imunidade e a impunidade, cuja narração iniciei na passada quarta-feira, completa hoje uma semana.

Há muito que andava a chocar algo, pressentia a humanidade. Um espirro aqui, um sintoma ali, uma dorzinha acolá... Uma virose, consolava-se. E assim foi adiando o inevitável, até ao início do ano 2020, altura em que a sua imunidade colapsou, sucumbindo a um novo coronavírus chamado SARS-CoV-2.

Coisinha de nada, pensou na altura, um mal-estar passageiro que logo logo passaria, como tantas outras de que padeceu... Só que d
esta vez aquilo que a princípio pensou tratar-se de uma mera gripe sazonal foi-se revelando cada vez mais fatal, cada vez mais letal, cada vez mais mortal.. com consequências jamais vistos, ou previstos.

O que não viu, ou não quis ver, acabou por atingi-la de forma avassaladora.
Demasiado ocupada a viver, a conviver, a experimentar, a explorar, a inventar, a inovar, a ousar... descurou o seu bem mais precioso: a saúde. Constantemente atarefada, nunca encontrara tempo para abrandar e prestar atenção aos sinais de alerta: o cansaço cada vez mais incapacitante, a pele cada vez mais baça, a boca seca, os olhos vidrados, a enxaqueca constante, o stress, a ansiedade, a depressão... 

Há muito que vivia cada dia como se fosse o último... Quando tomou consciência de que poderia, de facto, ser o seu último dia entrou em histeria total... No dia em que perdeu a imunidade, a humanidade descobriu o (real) significado da impunidade. Claro ficou que a sua intemporalidade foi-se esvaíndo na futilidade... Que de tanto levar uma vida frenética, desregrada e inconsequente, a sua imunidade foi baixando até deixá-la vulnerável ao mais temível dos inimigos: aquele que não se vê, não se ouve, não se cheira, não se toca, não se sente...

Nesse momento, prometeu a si mesma que mudaria de atitude, que passaria a comportar-se melhor, que se aproximaria dos vizinhos, que seria mais solidária, que mimaria os idosos, que passaria mais tempo com os entes queridos, que trabalharia menos, que desfrutaria com consciência, que respeitaria mais o ambiente, que cuidaria melhor da sua imunidade... Em suma, que olharia mais por si e pelos outros...

Foi preciso ficar privada do seu estilo de vida, jamais questionado até então, para a humanidade se consciencializar de coisas desconhecidas ou apenas relegadas a laivos de memória: que o setor terciário é essencial, que os idosos importam, que a solidariedade conforta, que a saúde é fundamental, que a imunidade não é inexpugnável e que a impunidade cedo ou tarde acaba.

Finalmente, assumiu que unida resiste e que dividida sucumbe...

Conseguirá ela debelar a doença e curar-se? Caso sim, ficará com sequelas? Dar lhe á o universo uma nova oportunidade para ser e agir diferente? Se sim, saberá aproveitá-la para ser mais e melhor? Os próximos tempos o dirão!

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hands-1222866_1920.jpgOra viva!

Hoje quero partilhar contigo a primeira parte de um conto, cuja redação iniciei em abril, em pleno confinamento geral da população portuguesa. Com ele pretendia eu concorrer ao Prémio Contos da Quarentena, promovido pela Livraria Lello. Dado que não cheguei a terminá-lo a tempo, eis-me aqui a dar-lhe alguma utilidade, não vá perder-se no meio das dezenas de rascunhos que tenho espalhado pela rede. Espero que gostes.

Era uma vez uma linda criatura chamada Humanidade. Filha do Sol e da Terra, afilhada predileta da Lua e amiga íntima das Constelações, foi criada com todo o esmero e dedicação. Airosa como nenhuma outra, a ela não faltava beleza, saúde, educação, conhecimento, luxo, divertimento, progresso...

Bastava querer que tudo conspirava a seu favor... t
inha tudo o que quisesse, ainda que não quisesse tudo o que tinha. O que lhe interessava era ter, possuir, comprar, adquirir, acumular... mais e mais... sem atentar-se às possíveis consequências de todo esse consumismo desenfreado.

Incapaz de estar quieta, a vida era uma eterna paródia, um espetáculo que tinha de continuar não importasse como... Gastava rios de dinheiro em festas, festivais, concertos, espetáculos, jantares...

Viajava a toda a hora, por toda a parte, saltitando de continente em continente, de país em país, de cidade em cidade... pelos motivos mais surpreendentes. De avião, de jato, de navio cruzeiro, de carro, de autocarro, de moto... o que lhe permitisse não estar parada, não vá a rotina acomodar-se.

A
depta do desporto, apadrinhava todo o tipo de competição, sobretudo as transnacionais, por lhe lembrarem que a sua existência não conhecia fronteiras, barreiras ou limitações. 

O verde, no início, e o cinza, no final, eram as suas cores favoritas.

Vaidosa compulsiva, mostrava-se incapaz em resistir ao charme industrial, em especial aquele que emanava do vestuário, do calçado, do automóvel, da tecnologia e do entretenimento, ainda que isso implicasse recorrer ao crédito. Estava (cada vez mais) endividada, sabia-o, mas o importante era a aparência e um padrão de vida digno de cobiça.

A sua existência só tinha valor se pudesse exibir-se. Por isso inventou as redes sociais, uma espécie de espelho mágico que lhe dizia, sempre que quisesse ouvir, que era a mais bela de todas. Como tal, era cada vez maior o tempo que lhes dedicava... afinal, além de não exigirem esforço acrescido, dedicavam-lhe atenção constante e... absoluta.

Quanto mais s
acrificava o seu tempo, a sua inteligência, a sua socialização e a sua essência, mais realizada demonstrava estar...

Com o passar do tempo foi-se assumindo cada vez mais mimada, caprichosa, vaidosa, egoísta e fútil... desafiando os princípios mais básicos de existência e da convivência. A ela tudo lhe parecia descartável: as pessoas, os relacionamentos, os sentimentos, os laços familiares, os objetos, os serviçais... 

Era-lhe mais caro o trabalho do que a família, o sexo do que o amor, o chat do que a conversa, os amigos do que os parentes, a rua do que o próprio lar, os outros do que ela mesma, o virtual do que o real, o superficial do que o essencial...

Desfrutava do hoje como se não houvesse amanhã, vivia o presente como se o futuro pouco importasse.

Quando jovem, só queria estar em comunhão com o que a rodeava. Com o passar do tempo, foi deixando pelo caminho o altruísmo e a sensibilidade. O materialismo fazia-se cada vez mais presente na sua atuação. A sua ideia de abundância tornou-se indissociável da prosperidade económica e financeira. Tudo o resto era de importância secundária, considerava ela...

Encontrava magia nas coisas e não nas pessoas...

Essa existência desregrada e desenfreada traria consequências sérias, alertavam-na aqueles que lhe tinham verdadeira estima... Focada, unica e exclusivamente, em alimentar os prazeres do corpo, não era do seu interesse inteirar-se da real gravidade do mal de que padecia. Fazia questão de ignorar os sintomas cada vez mais flagrantes...

De tanto brincar aos deuses acabou por esquecer que não passava de uma mera mortal, que, a uma velocidade estonteante, acumulava pecados atrás de pecados. Achava a Humanidade que a imunidade era o garante para a impunidade.

Quanta ingenuidade, quanta ignorância, quanta arrogância... mal sabia ela o que lhe estava reservado para o ano de 2020.

Continua...

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26
Set19

mallard-3524411_960_720.jpgViva!

Para hoje, trouxe-te um conto da minha autoria. Espero que gostes.

Era uma vez um pinto que andava com uma pita, mas que na verdade cobiçava uma puta. 
A pita pensava que tinha encontrado no pinto o seu príncipe encantado, só que o pinto procurava ardentemente uma aventura com uma puta.

A pita olhava para o pinto, que por sua vez olhava para todas... à procura de uma puta.
A pita queria o pinto, mas o pinto queria a puta.
A pita fazia planos de futuro com o pinto, mas o pinto suspirava pelo dia em que cairia nos braços de uma puta.
A pita sentia que o pinto era único, mas o pinto achava que a pita era só mais uma.
A pita sonhava acordada com o pinto e o pinto tinha insónias por causa da puta.
Um dia a pita, cansada de não ver retribuído o seu afeto, desistiu do pinto, que não se importou porque assim teria mais disponibilidade para ir à caça da puta dos seus sonhos.
De tanto procurar, o pinto finalmente encontrou uma puta, aquela que achava que ia realizar todas as suas fantasias e satisfazer todos os seus desejos.
O que o pinto não sabia era que para a puta ele era apenas mais um pinto.
Quando descobriu que era só mais um na vida da puta, o pinto finalmente se apercebeu que a pita era única.
Mas aí já era tarde, pois a pita já não queria mais saber do pinto, que por sua vez não podia ouvir falar na puta.


Moral da estória: às vezes temos tudo o que precisamos para ser feliz, mas andamos demasiado focados naquilo que poderíamos ter que acabamos por perder o que nos fazia feliz!

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