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Crónicas, contos e confissões de uma solteira gira e bem resolvida que não cumpriu o papel para o qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar pulos de alegria? Provavelmente, nem uma coisa nem outra!

casados-a-primeira-vista.jpg

Viva!
 
Hoje quero contar-te a minha (não) estória com o programa de que todos falam mas que poucos admitem visionar. Como já deves ter percebido pelo título e pela imagem, refiro-me ao Casados à Primeira Vista, a controversa experiência social que o canal 3 "franchisou" em terras lusas.
 
Já dele tinha ouvido falar, é certo, mas nunca tinha tido oportunidade de vê-lo passar. Assim, o meu interesse por ele chegou através de uma colega de trabalho, igualmente solteira, com quem desabafei sobre o quão desgastante e infrutífero tornou-se o engate, tanto no mundo real como no virtual. Cansada do desemparelhamento de longa duração, e almejando injetar alguma adrenalina à minha pacata existência amorosa, comentei com ela que estava a ponderar seriamente recorrer àquela agência matrimonial muito conhecida que fica lá para as bandas das Amoreiras e cujo nome opto por não dizer, que não estou para lhes fazer publicidade gratuita.
 
Foi assim que convenci a minha pessoa de que era uma boa ideia participar no programa, até porque o teaser nas redes sociais prometia uma experiência social única – inédita em Portugal –, onde o amor, o romance, o mistério e a aventura seriam os ingredientes-chave. Escusado será dizer que a abordagem pouca convencional do matrimónio e a ruptura com vários tipos de tabus e preconceitos que o formato prometia foram condimentos extras que me aguçaram ainda mais o apetite.
 
Antes de avançar com uma abordagem, achei de bom tom aconselhar-me com o Dr. Tarot, um especialista em desvendar a vida nas cartas. Para tal, valeu-me o dom da minha guru do bem e conselheira espiritual do AS, cujas previsões não poderiam ter sido mais auspiciosas. "É pra avançar e é para avançar já", disse-me com toda a convicção a Isabel Soares dos Santos. Era tudo que eu precisava ouvir para exorcizar de vez aquela vozinha interior que teimava em lembrar-me o quanto da minha intimidade teria que revelar num reality show. Admitamos ou não, o programa mais não é do que isso.
 
No dia seguinte – a arrotar confiança por todos os orifícios, já que tinha o aval dos astros – dediquei a minha pausa para o almoço a redigir uma manifestação de interesse digna de me tornar uma pretendente elegível a um primeiro encontro. Na rede catei um endereço de correio eletrónico para onde enviei o seguinte texto: 
Eu, SS, de 40 anos, 165 cm, 60 kilos, cabo-verdiana e residente no centro de Lisboa, gostaria que considerassem a minha candidatura ao programa. 
Sou licenciada em comunicação empresarial, área na qual exerço funções para uma missão diplomática, como consultora estratégica, e para uma associação profissional, como técnica de comunicação. Fora isso, sou autora do blog Ainda Solteira e social media manager freelancer. 
Pratico exercício físico com regularidade, faço meditação, primo por uma alimentação saudável e estou disposta a sair da minha zona de conforto para encontrar o amor. Para falar a verdade, estou farta dos sites e apps de encontros.
A vida corre-me de feição, faltando apenas o amor, que teima em não acontecer, depois de mais de sete anos desemparelhada. Nunca fui casada nem tenho filhos.
No aguardo do vosso interesse pela minha candidatura, endereço um abraço amigo.
 
Enquanto digitava, uma outra colega – essa sim casada e orgulhosa progenitora de três rebentos – lá me ia alertando para os contras de tal propósito: a exposição mediática, a natureza conservadora das duas instituições para as quais presto serviço, o preconceito social em relação a este tipo de conteúdo televisivo, a possibilidade de ser despedida e a devassa da minha vida privada, só para citar os argumentos mais consistentes; com a mesma eloquência com que eu rebatia os prós: as mais-valias que a fama poderia trazer a este blog, as portas que se me poderiam abrir, a oportunidade de dar voz e cara às solteiras desta vida, a possibilidade de desmistificar alguns preconceitos, os proveitos monetários e por aí fora.
 
Nem bem acabei de enviar o email, eis que recebo uma mensagem automática nesses dizeres: "Agradecemos a sua inscrição no novo programa da SIC! Estamos à procura de solteiros que procurem o seu par ideal! Se é o seu caso, por favor preencha este questionário. Depois de preencher o questionário, aguarde por um contato nosso!
Até breve!"
 
O questionário – extensíssimo, com dezenas e dezenas de perguntas – incidia sobre aspetos da minha vida que eu não tinha a menor intenção de revelar em cadeia nacional, ainda para mais em primetime. Obviamente que tinha consciência que, caso fosse selecionada, estaria sujeita a uma grande exposição mediática, justamente o que eu precisava para impulsionar este blog.
 
Tudo na vida tem o seu preço e eu até estava disposta a pagar aquele que considerava justo: expor grande parte da minha vida sentimental, uma parte da vida familiar e outra da vida social. O que não me passou pela cabeça, em momento algum, era que teria que expor o sítio onde vivo, o local onde trabalho, as pessoas com as quais convivo e os sonhos, planos e projetos mais pessoais.
 
Não que eu tenha alguma coisa a esconder ou algo do que me envergonhar. Simplesmente, não estou disposta a partilhar com desconhecidos aspetos meus tão íntimos, tudo isso ainda na fase de candidatura. Só para teres uma ideia, exigiam fotos da minha pessoa no trabalho, em casa (em dois cómodos distintos), com as pessoas com quem vivo, com os amigos com quem me dou e a executar atividades do dia a dia. Só faltou pedirem fotos da minha pessoa a defecar, passo a ordinarice.
 
Foi assim que uma relação que tinha tudo para acabar num happy end não resistiu à primeira crise, com o encanto a ceder lugar ao desgosto, a esperança a ceder lugar à desilusão e o entusiasmo a ceder lugar à frustração. Foi assim que o casamento à primeira vista acabou em divórcio à primeira crise. Ainda no altar, dei por findo o meu enlace matrimonial com um programa em que, pelo pouco que vi, pelo suficiente que li e pelo muito que ouvi, elas não querem estar com eles e eles não sabem como estar com elas.
 
Despeço-me com aquele abraço amigo e um lembrete de que só faltam 3 dias para o final da votação do Sapos do Ano.

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