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Crónicas, contos e confissões de uma solteira gira e bem resolvida que não cumpriu o papel para o qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar pulos de alegria? Provavelmente, nem uma coisa nem outra!

25
Mai22

O amor é bom

por Sara Sarowsky

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Ora viva! 🫶

Hoje trago a minha última crónica para o Balai Cabo Verde, acabadinha de estrear na rede. Boa leitura e um ótimo dia.

Dedico esta crónica a todos aqueles que têm dificuldade em sentir, expressar ou acreditar no amor. E quando falo em amor refiro-me a todo o tipo de amor, ainda que o romântico possa, por motivos mais do que óbvios, assumir o protagonismo.

De origem latina, a palavra "amor" refere-se essencialmente a todo e qualquer sentimento de afeição, paixão ou grande desejo. Considera o dicionário da língua portuguesa que ela pode ser definida como "um sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição ou atração", "grande afeição ou afinidade forte por outra pessoa" ou "ligação afetiva com outrem, incluindo geralmente também uma ligação de cariz sexual".

As definições acima citadas tornam evidente que existem várias formas de amar, ainda que a palavra capaz de as expressar na perfeição seja apenas uma: "amor". Os gregos, sábios desde os primórdios da civilização moderna, criaram oito palavras para descrever os diferentes tipos de amor que, ao longo da vida, vamos experenciando. São elas: Eros (amor apaixonado), Pragma (amor prático), Ludus (amor lúdico), Ágape (amor universal), Philia (amizade profunda), Philautia (amor-próprio), Storge (amor familiar) e Mania (amor obsessivo).

O ser humano, em algum momento da sua existência, experimentou ou experimentará a maior parte - se não mesmo todos - destes tipos de amor. A começar pelo Ágape, o primeiro que conhece mal acaba de nascer, o amor incondicional da sua mãe. Pela vida fora vai descobrindo as outras formas de amar, sendo o amor romântico (Eros) e o amor-próprio (Philautia) os que mais impacto terão na construção e na conservação da sua identidade e felicidade.

Para muitas pessoas, sobretudo aquelas que foram vítimas de algum desgosto amoroso ou presenciaram de perto uma dor de amor, talvez seja mais fácil não amar de todo, fechar o coração a qualquer tipo de afeição ou dependência emocional. É uma decisão sensata, contudo, inglória. Isto porque o amor é o que dá sentido, propósito e sabor à vida. Ele nutre, engrandece, embeleza, colore, preenche, cura, restabelece, fortalece, dignifica.

Independentemente da sua situação amorosa, familiar ou social, cada um de nós tem o poder de determinar a sua Philautia, ainda que reconheça que esta possa ser condicionada por factores externos à própria pessoa. A presença deste tipo de amor na vida de qualquer um de nós depende - e de que maneira - do amor que conhecemos desde a mais tenra idade. Depende, essencialmente, do Ágape. Quem nunca foi amado, terá grande dificuldade em amar, inclusive ama si propi cabeça, como dizemos em bom crioulo. Como poderia? Afinal, não se pode dar o que nunca se teve!

Ainda assim, garanto-te que é possível abraçar o amor e trazê-lo para a tua vida. Isto porque o amor não é algo que se procura ou que se encontra. É sim algo que se é, que se sente, que se vive, na qual se vibra. A correspondência por parte de outrem será consequência direta dessa forma de ser e estar na vida. Assim como a vida sem esperança assemelha-se à morte, um coração sem amor assemelha-se à decadência. O amor só precisa de coração, pelo que todo e qualquer ser humano é capaz de amar.

É por este motivo que jamais cansarei de apregoar que, de entre todos os tipos de amor possíveis, "sentíveis" e imagináveis, o mais importante seja o amor-próprio, aquela que depende única e exclusivamente da nossa vontade de vibrar em amor. Essencial é, pois, concentrarmo-nos em nós e estarmos felizes connosco, ao invés de delegarmos essa responsabilidade a terceiros.

O amor é bom! Ponto final, parágrafo, travessão. Por isso amemos, amemos muito. Amemos os nossos familiares, amemos os nossos amigos, amemos os nossos vizinhos, amemos os nossos colegas, amemos o nosso planeta, amemos a nossa vida e, acima de tudo, amemos a nossa pessoa, e tudo o que faz dela alguém tão especial, único.

 Que o amor 🧡 esteja (sempre) contigo e até um dia destes!

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04
Mai22

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Ora viva! 🫶

Hoje quero partilhar contigo a minha última crónica para o Balai Cabo Verde, publicada esta manhã, e na qual faço um apanhado das ocorrências mais marcantes deste quinto mês do ano.

Eis-nos chegados a um dos meses mais especiais do nosso calendário. Maio. Um mês que se conjuga essencialmente com M, não só por ser essa a primeira letra do seu nome, mas sobretudo porque é durante este quinto mês do ano que se celebram vários acontecimentos que levam esta letra nas suas iniciais. Versa, pois, esta crónica fazer um apanhado das mais relevantes, já que um pouco de cultura geral nunca fez mal a ninguém. Pelo contrário!

Quando penso no mês de maio ocorrem-me de imediato uma mão cheia de palavras: Mãe, Maria, Matrimónio, Mundo e Mudança. Mãe porque é no seu primeiro domingo que se rende homenagem àquela que concebe a vida. Maria porque é em meados desse mês que se celebram as aparições de Nossa Senhora, celebradas particularmente no Santuário de Fátima, mas extensíveis a outras geografias. Matrimónio por ser considerado o mês das noivas, muito provavelmente por causa das temperaturas amenas, dos cenários floridos e aromáticos. Mundo porque, à sua semelhança, somos um mundo de pessoas, emoções, sensibilidades, diversidades e culturalidades. Mudança porque é nos seus meados que a primavera atinge a sua plenitude e os padrões de vestuário mudam radicalmente.

Contudo, nem só de palavras começadas pela letra M - a décima terceira do alfabeto português, utilizada em 27,39% das palavras da nossa língua – reza a história deste mês. Vejamos:

- Logo no dia 1, assinala-se o Dia do Trabalhador, efeméride que visa lembrar que aqueles que trabalham merecem condições dignas de trabalho e de vida.

- Dois dias depois, dia 3, é a vez da Liberdade de Imprensa celebrar o seu dia mundial, assim como o astro responsável pela principal fonte de vida no planeta Terra: o Sol.

- A 5 celebra-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa, data oficializada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), no ano de 2019, ainda que desde 2009 fosse comemorado pela Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP).

- A 8, é a vez da Cruz Vermelha, a maior organização humanitária do mundo, celebrar o seu dia mundial. Um dia mais tarde, a 9 de maio, é a vez da Europa a celebrar o seu dia, numa comemoração para a paz e a unidade do Velho Continente. 

- A 15, a família conhece o seu dia internacional, naquela que é uma data proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1993, como forma de destacar a importância das famílias como unidades básicas da sociedade. Dois dias antes, a 13, assinala-se o Dia Internacional do Enfermeiro.

- Na sua terceira semana, destacam-se o Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade de Informação (17), o Dia Mundial do Médico de Família (19) e o Dia Internacional dos Museus (20).

- A 25 celebra-se o dia de mais um continente: África. Na origem desta efeméride está a criação, em Addis-Abeba, no ano de 1963, da Organização de Unidade Africana (OUA). Em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu esse dia como o Dia da África ou o Dia da Libertação da África.

- Já mais para o final, assinalam-se, a 29, o Dia Internacional dos Soldados da Paz das Nações Unidas e, a 31, o Dia Mundial Sem Tabaco.

Muito mais acontecimentos teria eu a imputar àquele que é também o mês que assistiu ao nascimento da minha irmã caçula, cujo nome começa precisamente pela letra M, e de muitos amigos. Quem sabe numa próxima oportunidade. Por ora, despeço-me com aquele abraço amigo e votos de que este mês faça jus à sua inicial: maravilhoso, magnífico, mágico!

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18
Mar22

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Ora viva! ✌️ 

Que belo dia que se faz hoje, não? Sente-se mesmo a vinda da prima vera, com os passarinhos a anunciarem a sua chegada. É uma benção acompanhar o dia a ficar mais comprido, a temperatura a subir e o verde a apossar-se da botânica. O único senão desta estação do ano é a rinite alérgica, da qual não há forma de eu me livrar. 🤧 

Bom, hoje estou aqui para partilhar contigo a minha última crónica para o portal de conteúdos Balai Cabo Verde, publicada esta manhã, ainda a tempo de saudar e prestigiar as minhas conterrâneas pelo seu dia que se avizinha. Sim, porque a mulher cabo-verdiana tem um dia que é só dela, e de mais nenhuma outra.

Março é um mês muito especial para as mulheres. Para as criolas é ainda mais especial, já que, não só comemoram o 8 de março, Dia Internacional da Mulher, como o 27 de março, Dia da Mulher Cabo-verdiana. Como tal, esta crónica é dedicada às mulheres da minha terra, as mais bodonas de todas e a quem presto esta mais do que merecida homenagem.

Quisera eu ser como tu, mulher
Quisera eu fazer de ti a minha melhor amiga
Quisera eu estar por perto toda vez que precisares
Quisera eu impedir que te partam o coração
Quisera eu ensinar-te a recomeçar de novo
Quisera eu abraçar-te sempre que precisares
Quisera eu proteger-te de pessoas abusivas e de relações tóxicas
Quisera eu gostar de ti como gosto de mim mesma
Quisera eu fazer da tua mágoa o meu manto de afetos
Quisera eu espelhar em ti a minha melhor versão
Quisera eu ser capaz de manter a violência longe de ti
Quisera eu erguer-te uma muralha contra os inimigos
Quisera eu aconselhar-te com sabedoria
Quisera eu amparar-te toda a vez que te faltarem forças
Quisera eu partilhar contigo os teus maiores sonhos
Quisera eu saber-te amada, realizada e protegida
Quisera eu caminhar ao teu lado por toda a vida
Quisera eu ser como tu
Quiseras tu ser como eu
Quisera eu ser mulher

Esta prosa foi originalmente publicada no Volume I da Antologia Mulheres e Seus Destinos, lançado em 25 de novembro de 2019.

Aquele abraço amigo e energia de um fim de semana fantástico!

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Ora viva! ✌️ 

Hoje partilho contigo a minha última crónica, uma original, para o Balai Cabo Verde, publicado ontem, 1 de março.

Querido 2022,

Há muito que estou para te escrever, só que, entre um afazer e outro, o tempo foi passando, sem que eu pusesse no papel aquilo que me ia na alma. Depois de ontem, não posso mais adiar esta missiva.

Sei que mal nos conhecemos, vimo-nos apenas 49 dias, mas já deu para perceber que não serás menos exigente que o teu antecessor. Pelo contrário, entraste logo a matar, literalmente falando.

Quero que saibas que estou ciente da tarefa dura, ingrata mesmo, que tens em mãos. Entraste em cena num período conturbado da história da humanidade, connosco cansados, devera desgastados, com um peso enorme nas costas e um grande aperto no coração. O que talvez não saibas é que, com a tua chegada, renovámos a esperança em dias melhores, crentes de que seríamos capazes de dar conta dos desafios que trarias.

"Pior do que 2021 não há de ser!", profetizamos. Como estávamos enganados. Mal começamos a acreditar que tínhamos encurralado o vírus do SARS-CoV-2, eis que no dia 24 de fevereiro nos acordas com um novo desafio. E que desafio. Uma guerra. Na Europa. Do Leste. Um território que é um barril de pólvora, como bem sabes.

Não sei quais os teus planos para os próximos 10 meses que faltam para dares por cumprida a tua missão. O que sei é que as tuas ações até ao momento não têm augurado nada de bom. Como se não bastasse uma luta implacável contra a covid-19, agora nos brindas com um conflito armado no velho continente.

Se permites que te diga, era a última coisa de que precisava o mundo numa altura em que as suas gentes estão por demais vulneráveis. Que grande trapalhada andas tu a fazer! Para além dos ucranianos que estão a sofrer horrores que apenas posso imaginar, as bolsas financeiras estão a afundar, o preço do petróleo e do gás a disparar em flecha e o clima de insegurança a alastrar. E não esqueçamos que o maldito bicho continua à solta, sedento de vidas humanas.

Estamos com o coração na mão, expectantes para saber quando voltaremos a viver sem (grandes) sobressaltos, num clima de paz e cooperação. Se não for pedir demais, intercede por nós junto de todos os deuses, santos, anjos, arcanjos e companhia limitada para que sejam cessadas de imediato as hostilidades. Diz a eles que queremos levar a nossa vida em segurança, que queremos voltar a ter prazer em ver os noticiários, que queremos celebrar a vida e não chorar a perda de vidas inocentes. Lembra a eles que a maioria de nós gosta de paz, amor, abraços e sorrisos e não de mortes, dor, sangue, medo ou insegurança.

Mal completaste dois meses de vida e já estou com a sensação de que não te posso mais aturar. Dá-nos uma trégua, imploro-te! Precisamos voltar a acreditar que vai tudo ficar bem e que voltaremos a viver, circular e desfrutar, sem barreiras nem fronteiras. Queremos que os nossos semblantes descarreguem, que os nossos sorrisos voltem a ser espontâneos, que as nações voltem a confiar umas nas outras e os povos a acreditar na paz.

Ao invés das imagens que conspurcam os nossos olhos desde ontem, queremos ver registos de crianças felizes, adultos alegres e entidades funcionais. Queremos que a sede de poder e autoafirmação de alguns se transforme em vontade de fazer o bem a todos. Queremos levar luz, esperança e conforto a todos os que nos rodeiam. Precisamos curar as nossas dores e não abrir feridas novas.

Termino dizendo que me sinto impotente por não conseguir atinar com o que estás a fazer da tua vida. O que sei é que estás a fazer merda com a nossa. Mais tenho eu para te dizer, quem sabe quando renovar em mim a crença de que és capaz de nos proporcionar dias mais leves.

Sem muita estima,
Sara

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28
Jul21

people-247459_1920.jpgOra viva! ✌️ 

Hoje trouxe a minha mais recente crónica para o portal de notícias Balai Cabo Verde, acabadinho de ser publicado. Bom proveito!

No outro dia, no decurso de um almoço com ex-colegas de trabalho, alguém perguntou-me se na verdade existem mais mulheres solteiras do que homens solteiros. A resposta que dei na altura serve de mote a esta crónica, a qual intenta lançar um olhar sobre a (aparente) discrepância entre os géneros no que toca à solteirice.

Dita a minha experiência que a percentagem de corações solitários está praticamente elas por eles, ainda que com uma ligeira vantagem do sexo feminino, facilmente explicado pela sua predominância em termos populacionais. O que acontece é que para a maioria dos indivíduos do sexo masculino estar solteiro não tem necessariamente que rimar com estar sozinho.

É bem mais fácil - e socialmente tolerável - que os celibatários tenham "amigas", as quais vão rodando consoante o estado de espírito ou apetência sexual. Muito mais à vontade do que nós mulheres em separar o coração da libido, eles lidam e gerem melhor o seu estado civil, mais não seja porque a sociedade é mais branda e condescendente com eles. "Ter alguém" sem assumir uma relação é melhor aceite quando se trata do género masculino; disso não tenhamos dúvida, ainda que nos console pensar o contrário.

Uma mulher que vai colecionando "amigos" é comum e inevitavelmente rotulada de "fácil", "leviana", "promíscua", para não dizer outra palavra de quatro letras começada por p. Nos nossos dez grãozinhos de terra, em que a dimensão do território é inversamente proporcional ao falatório sobre a vida alheia, esta é uma situação flagrante, condicionante, incapacitante. Com a mulher que vai fazendo a sua vida amorosa, à margem do seu celibato, a comunidade é implacável no criticismo, no julgamento, na condenação e na ostracização.

Com os homens a conversa é outra. Em inúmeras paragens deste planeta ficam até bem vistos; afinal, cultivar e perpetuar o dogma do macho alfa valoriza o seu passe perante tudo e todos. Ele é encarado como um servidor social, que mais não faz do que cumprir o seu papel de provedor da satisfação feminina e da perpetuação da espécie. Mulher que vai saltando de par em par de calças incomoda bem mais do que mulher que prefere aguardar pelo par de calças ideal. Homem que adota a mesma postura incorre no pecado mortal de ver sua masculinidade posta em causa.

A eles é permitido provar da doce fragrância do romantismo, desde que isso não comprometa a sua macheza, claro está. A elas injetam-se doses cavalares do mesmo elixir do amor, na expectativa de que se mantenham puras e castas até à chegada do tal dito cujo montado no cavalo branco, o qual, no final da estória, fica-se a saber que não passa de um sapo sob o encantamento de uma fada madrinha ressabiada. Mas isso já é assunto para outra ocasião.

Termino lembrando que, sobretudo no caso dos homens, estar solteiro não implica necessariamente estar sozinho, assim como não ter uma relação assumida não implica estar em abstinência sexual. As coisas são como são e, em matéria de solteirice, cada um conduz a sua vida da forma que melhor lhe convier, que ninguém tem nada a ver com isso. O importante é ser feliz e desfrutar da vida tal como ela se nos apresenta.

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09
Jul21

coronavirus-4914028_1920.jpgViva! ✌️ 

Conforme prometido, aqui vai o relato do meu encontro imediato com o vírus SARS-CoV-2, publicado estamanhã no portal Balai.cv

A crónica de hoje é um testemunho pessoal, provavelmente o mais íntimo que já aqui partilhei. Com ela pretendo, mais do que relatar, alertar para a seriedade de uma doença que só quem dela padece(u) é capaz de perceber. Testei positivo ao SARS-CoV-2, que como bem sabemos é o vírus responsável pela covid-19, a pandemia que assola o nosso planeta há mais de 18 meses.

Mais dramático do que testar positivo, foi tê-lo feito no dia em que foi-me administrada a segunda dose da vacina e a menos de 24 horas de embarcar numa aventura há muito ambicionada. Não faço a mais pálida ideia sobre o local ou o momento em que se deu o contágio. O que sei é que, até receber a comunicação do resultado do primeiro teste (antigénio), não apresentava qualquer sintoma.

Agora, volvidos três dias, e com um teste PCR a confirmar o primeiro diagnóstico, é inegável que o vírus adentrou pelo meu organismo e que está a tentar por todos os meios causar o máximo de estragos possível. Sim, porque este vírus, oportunista como qualquer outro, apossa-se dos nossos pontos fracos e usa-os como arma de arremesso. A batalha é desigual, injusta até, mas esta solteira aqui, uma guerreira nata, pretende lutar com todas as suas forças para amparar os golpes e escapar ilesa ao ataque.

A esta altura da infeção, imagino que o meu organismo esteja mais bagunçado do que o Marquês da Sapucaí em noite de folia carioca. Com a presença de duas doses da vacina, mais o vírus em genoma, o meu sistema imunitário deve estar a sambar - e como - para conseguir sobreviver aos próximos dias. O que me vale é que nele deposito todas as minhas esperanças, orando para que não me falhe nesta hora de aflição, agonia, vulnerabilidade e incerteza.

O meu caso não inspira cuidados maiores, ainda que não esteja assintomática. Todos os dias aparece um sintoma novo; por exemplo, enquanto escrevia este texto dei-me conta que que já não tenho paladar nem olfato. Se estivéssemos em 2019, dir se ia que estou com uma (valente) constipação e que poderia retomar a minha vida normal. Em 2021, diz-se que estou "convidada" e que devo cumprir isolamento.

Toda esta situação permite-me tirar algumas ilações, as quais passarei a mencionar. Primeira, a vacina não protege do vírus, o que ela pode fazer é minimizar o seu impacto, motivo pelo qual as autoridade sanitárias insistem que os inoculados devem continuar a cumprir com todas as regras e recomendações. Segunda, quando ficamos infectados, a primeira inquietação que nos assola o espírito é se fomos transmissores. No meu caso, ao que tudo indica, fui uma hospedeira egoísta, que guardou o mal consigo, não o partilhando com ninguém. Ainda bem que assim é, porque seria um desgosto muito grande gerir a responsabilidade de ter dado atraso na vida de outra pessoa. Os meus contactos já foram testados e todos acusaram negativo. A terceira ilação é que com a covid já não tenho eu que preocupar; afinal, para além das duas doses da Pfizer, já carrego comigo os anticorpos do próprio vírus, Como disse uma colega muito querida, fiquei imunizada para o resto da vida.

Como este vírus sofre mutações a uma velocidade estonteante, todo o cuidado é pouco, daí que relembro que esta doença deve ser encarada com a devida seriedade e as recomendações das autoridades competentes levadas à letra, pois nunca sabemos quando será a nossa vez nem como reagirá o nosso organismo.

E assim vai a vida desta solteira, repleta de aventuras, umas boas, outras nem por isso; contudo, todas uma lição de vida. Cuidem-se e cuidem dos vossos, pois o bicho (ainda) anda à solta, e se corrermos ele pega, se ficarmos ele come. Até à próxima!

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23
Jun21

people-3104635_1920.jpgOra viva! ✌️

Hoje trouxe a minha última crónica para o Balai Cabo Verde, publicada ontem. Boa leitura e, mais do que isso, boa reflexão.

A notícia do falecimento de uma colega da faculdade, no auge dos seus 40 anos, vítima de um tumor cerebral, a par de tantas outras - demasiadas - de que vou tomando conhecimento, impele-me a dedicar esta crónica à vida, mais concretamente ao desfrutar dela, sem adiamento, culpa ou pudor.

Este despertar de consciência arrancou há pouco mais de dois anos, com o desaparecimento físico do meu pai, vítima de doença súbita, fulminante, fatal. Pessoa de trato fácil, sorriso constante e alegria contagiante, partiu aos 63 anos, a escassos meses de alcançar a tão ansiada reforma. Para esse momento marcante na vida de qualquer trabalhador tinha ele planeado dedicar-se à vida do campo, viajar, passear, ou seja, curtir a vida, na convicção de que para isso tinha feito durante quase quatro décadas.

É neste contexto que, após meses e meses de reflexão, ponderação e procrastinação, tomei a decisão de passar a desfrutar (ainda) mais da vida. O primeiro passo para a concretização desse objetivo foi a desvinculação do emprego por conta de outrem. O derradeiro passo será a mudança, em breve, para um novo país. Estar mais próxima daqueles que amo e beneficiar do contacto permanente com a natureza - sobretudo o mar, que eu tanto adoro - é o que mais desejo a esta altura da vida. Mais do que fama, sucesso, dinheiro ou até mesmo amor.

Esse acontecimento, marcante na vida de qualquer pessoa que perde um ente tão próximo, veio por a nu algumas questões para as quais estava consciente, ainda que sem assumir uma posição firme. Até que chegou uma altura em que adiar a decisão de mudar de vida deixou de fazer sentido. O último ano veio apenas dar o empurrão final para uma tomada de posição, definitiva, irrevogável.

Para a costa gaulesa pretendo eu rumar, atrás de um sonho (possível) de uma vida pacata, num sítio tranquilo, longe do rebuliço e do stress de uma capital. Só assim conseguirei estar mais conectada com a minha essência, mais alinhada com a vida que realmente desejo, mais consciente de que o que realmente importa são os momentos que vivemos, as pessoas que amamos, os lugares que visitamos, os corações que tocamos, as experiências que vivemos.

Vivemos tempos conturbados, a todos os níveis e em todas as esferas. A pandemia mais não fez do que agudizar um quadro há muito precário e incerto. Sempre ouvi dizer que a certeza de que estamos a envelhecer chega quando assistimos à morte de pessoas conhecidas. Pela quantidade de conhecidos cujo passamento vou acompanhando, cada vez mais pesarosa, é caso para dizer que me sinto à beira do centenário.

Afinal, quem melhor do que a morte, a mais contundente de todas as certezas, para nos fazer lembrar que da vida só levamos o que vivemos? Haverá sempre outra oportunidade, outra amizade, outro amor, mas nunca outra vida, daí que jamais deixe passar uma oportunidade para aconselhar, para alertar: amemos hoje, perdoemos hoje, beijemos hoje, abracemos hoje, demonstremos hoje, vivamos hoje. Devemos fazer tudo hoje, não deixar nada para amanhã. Porque somos instantes e num instante deixamos de ser.

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09
Jun21

Merecemos amar e ser amados

por Sara Sarowsky

couple-560783_1280.jpgViva! ✌️ 

Conforme adiantado no post anterior, cá estou eu para dar-te conhecimento da minha última crónica no Balai Cabo Verde, desta feita dedicada ao amor, tema que nunca se esgota, tamanha a sua importância na nossa vida. Espero que gostes!

Hoje quero falar de amor. Não desse de que se ouve falar por tudo e por nada, instantâneo e efémero, mas daquele maior, verdadeiro o suficiente para durar toda uma vida. Para grande desconsolo meu, tenho que reconhecer que vivemos tempos que promovem relações efémeras, despoletadas num clique, dissolvidas num instante...

Nos dias de hoje, mais fácil do que entrar num relacionamento amoroso é dela sair. Fala-se de amor ao primeiro olhar e vira se lhe as costas ao primeiro desgosto. A culpa - se é que a podemos imputar a algo, ao invés de a alguém - parece residir na infinidade de alternativas disponíveis, em que, por cada parceiro que fica pelo caminho, abre-se uma dezena delas. E as aplicações de encontro, pensadas para solucionar um problema, mas acabando por criar outro ainda mais alarmante, parecem ter um papel incontornável na agudização deste cenário.

Perante a imensidão de opções que elas oferecem, poucos são os dispostos a apostar seriamente no romance. Como tal, esforçar-se para conhecer verdadeiramente alguém, investir numa relação, trabalhar a dinâmica do casal, não desistir à primeira dificuldade, batalhar pela felicidade a dois e aceitar que o amor demanda sacrifícios não é para todos. Daí que considere que esse amor maior que há pouco descrevi seja o novo el dorado da contemporaneidade; dele ouve-se falar o tempo todo e até se acredita que existe, mas somente uns poucos o conhecem realmente.

Ao longo destes seis anos de dedicação à solteirice, em momento algum conheci quem assuma não querer ser amado. Independente da dimensão da nossa veia romântica, estamos todos cientes de que amor faz toda a diferença. Desejo primeiro e último de qualquer humano, é ele que dá sentido à sua existência, que o faz querer ser melhor a cada dia, que dignifica o divino que nele habita. A questão é que nem todos são suficientemente corajosos para enfrentar a sua força, a sua dimensão, a sua grandiosidade. Contudo, quem for capaz de superar a turbulência de emoções que ele acarreta e se permitir ser vulnerável, facilmente chegará à conclusão de que não há sensação mais apaziguadora, mais compensadora, mais libertadora.

Amor verdadeiro é mais do que sexo escaldante, beijos apaixonados ou declarações inflamadas nas redes sociais. É partilhar sonhos, respeitar o outro acima de tudo, fazer da lealdade o maior aliado, abraçar um projeto a dois, ser genuinamente compreendido pelo outro, ter um verdadeiro amigo para conversar e um companheiro para ajudar a enfrentar as provas e as turbulências da vida. Amar e ser amado é a maior aventura da vida.

E todos nós merecemos experienciar um amor assim, nem que seja por uma única vez. Resta saber o que estamos dispostos a fazer por isso. Por estar ciente do enorme desafio que está a ser encontrar esse tipo de amor, coloco à disposição de qualquer pessoa que ainda mantém viva a chama da esperança os meus préstimos de consultora sentimental,. Para tal, basta entrar em contacto comigo, que tudo farei para ajudar. Que o amor esteja connosco e que a esperança esteja com todos os corações solitários.

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26
Mai21

Vivemos ou vegetamos?

por Sara Sarowsky

abstract-2915769_1920.jpgOra viva! ✌️ 

Contigo partilho hoje a minha última crónica para o Balai Cabo Verde, a qual foi publicada esta manhã, mesmo a tempo do nosso encontro. Boa leitura!

Há muito que estou para escrever sobre o (real) significado da vida, uma questão crucial ao autoconhecimento e à evolução de qualquer humano disposto a fazer bom uso da sua capacidade analítica. Abro aqui um parêntesis para alertar que não é intenção desta crónica dissertar sobre o sentido filosófico da vida, mas antes sobre a forma como cada um de nós a experiencia.

O que é para ti viver, já alguma vez pensaste nisso? Para o dicionário é basicamente existir. Para mim é essencialmente desfrutar desse existir. A meu ver, existe uma linha muito nítida que separa aqueles que "existem" daqueles que "vivem", daí que te desafie a pensar em qual das categorias te enquadras. Claro que para assumires uma posição vais precisar de mais elementos, os quais darei com todo o gosto ao longos dos próximos parágrafos.

Todo aquele que vive existe, correto? Mas será que todo aquele que existe vive? Confusos? A esta altura do raciocínio até eu estou, confesso! A desconstrução deste meu ponto de vista parte de um pressuposto bem simples: os vegetais existem mas não vivem. Concordas que os vegetais existem, certo? Hás de igualmente concordar que eles não vivem. Com os humanos passa-se o mesmo; há os que existem e vivem e os que existem mas não vivem, logo, vegetam.

Vivem aqueles que aproveitam da vida, que tiram vantagem de tudo, que desfrutam da experiência de estar vivo. Vivem aqueles que têm um propósito na vida, que se reinventam a cada dia, que procuram ser mais e melhor, que investem em si e nos outros ao seu redor, que buscam evoluir, que fazem por atingir seus sonhos e suas ambições. Vivem aqueles que contribuem, somam, acrescentam valor. Vivem aqueles que sabem ser gratos pelo que possuem, mas nem por isso se conformam. Vivem aqueles que não têm tudo o que querem mas querem tudo o que têm. Vivem aqueles que reconhecem a vida como uma bênção. Vivem aqueles que apreciam a viagem, independentemente do destino ao qual ela os conduz.

Em contrapartida, vegetam aqueles cuja existência é conduzida em modo automático; aqueles que respiram, comem, dormem, trabalham, pagam contas e por aí fora, sem questionar, contestar, almejar, desafiar, batalhar. Vegetam aqueles que não exercem o seu querer nem a sua vontade própria. Vegetam aqueles que não fazem uso do seu livre arbítrio, da sua capacidade para dizer "não" ou "basta" a tudo que não acrescenta valor. Vegetam aqueles que se regem cegamente pela cartilha da religião, da política, da informação oca e da coscuvilhice. Vegetam aqueles que gratuitamente criticam, julgam, condenam e castram tudo o que não vai de encontro à sua ideologia. Vegetam aqueles que encaram a vida como um fardo. Vegetam aqueles que, só por existirem, tornam o mundo um lugar menos agradável para se viver.

Acima de cada uma delas, identifico outras duas categorias: os sobreviventes (aqueles que ainda não vivem, mas já não vegetam) e os extraviventes (aqueles que cumprem a sua missão de vida, atingindo assim o mais alto patamar da vivência). Mas isso já é assunto para outra crónica...

Aquele abraço amigo e até sexta!

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14
Mai21

DE00B3A8-361B-456B-9C52-94922DC8C546.jpegViva! ✌️ 

Para acabar em grande uma semana deveras produtiva, deixo-te com a minha última crónica no portal Balai Cabo Verde, publicada esta quinta-feira, 13 de maio, e que versa sobre o poder de acreditar, esse que me tem impulsionado a conquistar tudo o que sabes e algumas que ainda hei de revelar.

O impacto da entrevista ao programa Cabo Verde Magazine, emitida esta semana no canal televisivo público, leva-me a dedicar esta crónica à pessoa por detrás do Ainda Solteira, o blog pelo qual dá cara, coração e alma. É, pois, hora de descortinar um pouco sobre o seu percurso, com especial enfoque no seu poder de acreditar, esse sim o maior responsável pelo sucesso, a par da perseverança.

Quem só agora começa a familiarizar-se com o nome Sara Sarowsky pode, com toda a legitimidade, questionar de onde surgiu tal figura, que de um momento para o outro parece estar em todo o lado (congresso internacional, página governamental ou televisão estatal). O que provavelmente não sabe é que foi preciso um longo e desafiante caminho para ela chegar aonde chegou. Um caminho feito com paciência, humildade, sabedoria e muita, mas muita, perseverança.

Celibatária por condição e feliz por opção, ela que se assume como uma “desencardidora de mentes”, no que toca à solteirice no feminino, conseguiu alcançar um facto inédito: três distinções consecutivas como melhor blogger de Portugal nas categorias de sexualidade, sexo e diário íntimo. Pelo meio publicou uma prosa numa antologia, vestiu a camisola de cronista de um dos mais prestigiantes jornais portugueses, concorreu a um prémio literário, criou um serviço de cupido profissional, integrou a equipa deste portal, dinamizou um ciclo de lives, deu palestras motivacionais … Na calha tem um livro sobre provérbios cabo-verdianos e um programa de televisão para solteiros da comunidade lusófona. Muito alcançou, mais há de conquistar.

Só aqueles que foram capazes de triunfar a partir do nada – sem nome, renome, cunha, dinheiro ou influência – são capazes de reconhecer que o topo que todos elogiam e tantos cobiçam implica inexoravelmente uma escalada árdua, penosa mesmo, apenas ao alcance dos mais persistentes. Não é à toa que os falantes da língua inglesa acreditam que sem pain não há gain. Ela é disso prova, motivo pelo qual intenta com esta partilha inspirar-te a acreditares em ti, a batalhares por ti e pela tua felicidade (esteja ela onde estiver).

Por experiência própria está ela em condições de garantir que não existe vitória sem esforço, conquista sem dedicação, triunfo sem perseverança, prestígio sem empenho, sucesso sem confiança. Acreditar que se é capaz é a chave que abre todas as portas do sucesso. Quando acreditou em si o mundo passou a acreditar; e toda a exposição mediática acima referida é disso resultado. Quanto mais acredita mais conquista e quanto mais conquista mais acredita. É tudo perfeito? Nem por isso! Já tudo conquistou? Nem de longe! Para tal vai (continuar) a batalhar, e a acreditar, claro!

Com morabeza, Sara Sarowsky.

P.S. - Ainda que seja na minha língua materna, o crioulo, convido-te a ver as duas partes da referida entrevista, uma sobre o blog e outra sobre o livro.

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