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Cr√≥nicas, contos e confiss√Ķes de uma solteira gira e bem resolvida que n√£o cumpriu o papel para o qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar pulos de alegria? Provavelmente, nem uma coisa nem outra!


05
Set22

Quando morrem os sonhos

por Sara Sarowsky

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Ora viva! ūüę∂

Uma m√£o cheia de semanas depois, eis-me de volta ao teu conv√≠vio, repleta de novidades, cr√≥nicas, planos e sonhos. E √© precisamente sobre estes √ļltimos que versa a minha √ļltima cr√≥nica para o portal Balai Cabo Verde, publicada a 18 de agosto, e que vou agora partilhar contigo.

Quando morrem os sonhos

H√° muito que ambicionava dar um outro rumo √† sua vida. A s√ļbita morte do progenitor e, posteriormente, a inesperada pandemia da covid despoletaram nela a certeza de que desejava ‚Äď na verdade, precisava - abra√ßar uma nova vida. Sabendo que o primeiro passo para a mudan√ßa prendia-se com o n√£o mais querer estar onde estava, tornara-se evidente que a mudan√ßa era incontorn√°vel, imprescind√≠vel, inadi√°vel.

Num belo e quente dia de ver√£o, partiu √† aventura, atr√°s do recome√ßo pelo qual h√° tanto ansiava. Consigo levou duas malas, uma grande e outra mais pequena, uma mochila, um saco e um cora√ß√£o a abarrotar de sonhos. Nesse cora√ß√£o cabiam sonhos de todo o tipo: novo pa√≠s, novo idioma, nova casa, novo trabalho, novos amigos, novas rela√ß√Ķes, novos amores, nova din√Ęmica, no fundo nova exist√™ncia.

Dias ap√≥s dia, semana ap√≥s semana, os seus sonhos foram-se vergando √† dureza da realidade, rendendo-se √† for√ßa do infort√ļnio. Nenhum deles, nem o mais insignificante de todos, se concretizou. Pelo contr√°rio, a aus√™ncia de sorte era de tal modo constante que os mal-sucedidos acumulavam-se a uma frequ√™ncia praticamente di√°ria. Ainda antes da partida, o universo emitira sinais, v√°rios at√©. Em nome de uma vontade irrefre√°vel, n√£o lhe deu ouvidos, com ele teimou, a ele ousou desafiar. Precisava faz√™-lo, caso contr√°rio arrepender se ia para o resto da vida.

O que n√£o cogitou, ainda que intimamente o intu√≠sse, era que a √ļltima palavra n√£o seria a sua, jamais seria. Por muito que sonhemos, almejemos, planeemos ou fa√ßamos, a concretiza√ß√£o do que quer que seja s√≥ acontece no espa√ßo e no tempo entendido pelo destino, ou universo como preferia chamar √†s for√ßas superiores que comandam as a√ß√Ķes humanas e determinam a sua experi√™ncia terrena. De pouco ou nada adianta insistir em algo (ainda) n√£o validado por ele, at√© porque o tempo divino e o tempo humano raramente coincidem; o primeiro √© infinitamente mais s√°bio do que o segundo, bem mais ansioso e impaciente.

Em terra estrangeira, numa geografia aninhada entre o oceano e a montanha, encontrou consolo nas tardes passadas na praia, numa comunhão íntima e recíproca com a natureza, a qual testemunhava com apreensão o seu desassossego, com pesar a sua agonia. Assistir ao sucumbir dos sonhos alheios, sem que os envolvidos nada possam fazer para impedir tal desfecho, é algo a que a mãe de todas as criaturas dificilmente consegue manter-se insensível.

Com o sol, a praia, as dunas e o oceano partilhou ela os seus mais √≠ntimos ensejos, anseios e frustra√ß√Ķes. Com a lua chorou a morte desses sonhos, os quais iam perecendo √† vez, √† merc√™ de cada frustra√ß√£o, cada insucesso, cada contrariedade. O mar lambeu-lhe as feridas, a brisa secou-lhe as l√°grimas, o sol aqueceu-lhe a alma, a natureza curou-lhe as m√°goas, o tempo aliviou-lhe o sofrimento.

Despida de expectativas, despojada de ilus√Ķes e carente de sonhos - sonhos esses que a levaram a desafiar tudo e todos, a fizeram almejar vencer a maldi√ß√£o que pendia sobre si, fintar o azar e triunfar sozinha num pa√≠s povoado de estranhos - retomou √† proced√™ncia, de cora√ß√£o partido e alma fragmentada, sem a mais p√°lida ideia sobre que rumo haveria de dar √† sua exist√™ncia dali em diante. Sem outra op√ß√£o que n√£o fosse render-se √†s evid√™ncias, um passo atr√°s viu-se obrigada a dar, regressando √† casa de partida, tal qual jogo de monop√≥lio. Sim, muitas vezes √© preciso dar um passo atr√°s, recuar, para poder avan√ßar com mais vigor, mais sagacidade, mais sabedoria.

Continua...

Bem-vinda de volta ao blog. Regressarei na quarta, com mais uma crónica. Até lá, deixo-te com aquele abraço amigo só nosso!

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2 coment√°rios

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De Botas de Mulher a 05.09.2022 às 12:05

N√£o nos podemos deixar vencer pelos disabores da vida.
A vida tem disabores sim, mas a capacidade de sonhar n√£o deve morrer.
Ali√°s, quando um sonho n√£o se realiza, substitui-se por outro que seja concretizavel.
Desistir de sonhar é que não!
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De Sara Sarowsky a 05.09.2022 às 12:44

Toda a razão tens tu meu bem, tanto que a segunda parte da crónica vai incidir sobre quando nascem novos sonhos, já que para isso é preciso que os velhos morram. Grata por partilhares o teu ponto de vista. Dia feliz

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