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Crónicas, contos e confissões de uma solteira gira e bem resolvida que não cumpriu o papel para o qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar pulos de alegria? Provavelmente, nem uma coisa nem outra!


23
Jun20

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Viva!

Hoje quero desabafar contigo sobre o motivo por detrás da minha, cada vez mais acentuada, aversão pela literatura romântica. O perfil de devoradora compulsiva de livros com corações, vulgo romances, relevou-se ainda nos primórdios da minha adolescência, como já aqui tive oportunidade de contar no post A felicidade pode estar ao virar da páginaClássico ou de bolso, pelas minhas mãos passaram milhares de exemplares de Sabrinas, Júlias, Biancas, Harlequins e companhia limitada.

A leitura de romances, em especial o momento de partilha com as amigas que se lhe procedia, era, sem sombra de dúvida, o passatempo favorito da minha meninice, pelo qual ansiava desde a hora em que acordava até à hora em que ia dormir. Já adulta, o gosto pela coisa manteve-se, ainda que com menos intensidade, à medida que ia descobrindo que o amor na vida real podia ser bem mais interessante. Hoje em dia, salvo três ocasiões (viagem de autocarro para a França, férias ou idas à praia), é raro eu pegar neste tipo de livro.

Ainda que continue a considerá-las ideais para desanuviar as ideias, ao mesmo tempo que resgata a veia sonhadora que há em nós, os seus enredos têm-me cativado cada vez menos, ao ponto de abandonar a maior parte deles ao fim de um ou dois capítulos. Porquê? Porque é-me cada vez mais difícil identificar com o perfil das protagonistas. Em mais de 90% das histórias, elas são retratadas como criaturas frágeis, inseguras e com pouca autoestima, pobres coitadas a quem o amor de um homem impele à metamorfose necessária à felicidade.

A ideia comum à maioria delas é que a solução para os problemas de uma mulher reside quase que exclusivamente no homem pelo qual se apaixona. Exemplificando: se ela é pobre, é através do casamento que consegue resolver os seus problemas financeiros; se é vítima de chantagem ou algum outro tipo de coação, caberá ao homem dos seus sonhos livrá-la dos apuros; se está a passar qualquer tipo de dificuldade, a sua salvação é responsabilidade do dito cujo. 

Esta visão da mulher no contexto amoroso representa, a meu ver, a mais pura expressão de machismo que possa existir; uma postura absolutamente incompatível com o empoderamento feminino, tema que me é tão caro. É por isso que vou deixando de ler romances. Ainda há dias, durante as férias no Algarve, dos quatro exemplares que levei comigo, só consegui acabar de ler apenas um. Aos restantes dei-me tão somente ao trabalho de folhear as primeiras páginas, já que rezavam pela mesma cartilha: a coitadinha que é resgatada da sua miserabilidade por um homem com quem, no fim, acaba a trocar juras de amor eterno.

Em pleno século XXI não há, nem pode haver, lugar para pensamentos destes, alarmantemente ilustrativos de uma visão estereotipada, enviesada e desajustada da realidade. Há sim lugar para incutir nas leitoras, que tal como eu devem começar a consumir este tipo de literatura ainda na adolescência, de que as mulheres devem ser donas e senhoras do seu destino, perfeitamente capazes de resolver os seus problemas, de batalhar pelo seu lugar ao sol, de serem felizes à própria custa.

Portanto, às novelistas desta vida lanço o desafio de abraçarem a causa feminista e de adaptarem a sua escrita aos tempos atuais. Peço ainda o especial favor de pararem de alimentar o monstro da dependência de uma mulher em relação a uma figura masculina, como se a felicidade da primeira só pudesse ser justificada pela presença da segunda.

Afinal, o que vos impede de caracterizar a personagem principal como uma mulher segura, confiante, dona da sua vontade, a quem um amor vem apenas acrescentar mais valor à sua vida? É preciso lembrar-vos que os escritores têm uma enorme responsabilidade social, cujo impacto é imensurável; e que, por isso mesmo, devem ter um cuidado extra na forma como retratam cada um dos personagens, sobretudo a principal?

Por hoje é tudo. Aquele abraço amigo de sempre!

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