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Crónicas, contos e confissões de uma solteira gira e bem resolvida que ainda não cumpriu o papel para o qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar pulos de alegria? Provavelmente, nem uma coisa nem outra!


girl-2217926_1920.jpgOra viva!

Para hoje proponho voltarmos a analisar aquela (velha) questão das relações assentes no "dar o corpo ao manifesto a custo zero", como gosto de chamar aquelas baseadas unica e exclusivamente no sexo. Não é de hoje que apregoo a minha reticência, para não dizer aversão, a esta modalidade amorosa, que, a meu ver, mais não é que uma forma cómoda, e masculinizada, de descaracterizar o amor, tornando-o num ato primitivo e banal. É precisamente sobre partilhar o corpo sem entregar o coração que versa esta crónica.

Sexo sem envolvimento emocional, ou seja, sem um sentimento mais profundo que a mera tesão, é coisa com a qual nunca me identifiquei. Desde que me iniciei na arte romântica que evito esse tipo de interação amorosa, essencialmente pelo receio daquele vazio pós-coito, inevitável, ainda que gerível. A falta da assistência depois do bem bom, ao qual dou muito valor, sempre foi a meu calcanhar de Aquiles nas relações amorosas.

No entanto, nos últimos tempos, à pala das profundas mudanças que venho encetando na minha pessoa, em especial no meu espírito, tenho feito um esforço acrescido para abrir-me a novas formas de amar, a novos tipos de relacionamentos, a novas práticas sexuais. Abrir mão de um ideal não é pera doce, até porque chega-se a uma altura da vida em que os nossos ideais tornam-se parte daquilo que somos. Não viver o amor só porque ele não corresponde ao nosso ideal é deixar de viver a vida tal como ela se nos apresenta. E se há coisa com a qual tenho aprendido é que a vida é para ser vivida do jeitinho que dá. Esperar para vivê-la apenas nos momentos que vão de encontro àquilo que idealizamos é contraproducente. A perfeição não existe e, mesmo nos momentos em que ela se manifesta, encontramo-la nos pequenos momentos e não apenas num único grande momento.

Na base desta minha mudança de direção mental está a profunda (re)evolução interna que venho abraçando de uns tempo para cá. A explicação parece residir no facto de, a cada septénio (período de sete anos) finalizarmos/iniciarmos um ciclo de vida, por imposição de Saturno, o planeta responsável pelos desafios existenciais, os quais temos de superar sob pena de voltarmos a ter que lidar com eles over and over again... Nada melhor que a minha estória com o tal mec francês, com quem vivi uma (breve) aventura amorosa agora nas férias, para ilustrar esta minha mudança de paradigma em relação ao amor.

Conheci o Ben, assim se chama ele, num domingo, já em contagem decrescente para o final das férias. Andávamos nós - a minha irmã, a minha sobrinha e eu - a catar caranguejos à beira-rio, quando diz-me a primeira que um dos praticantes de paddle que desfilava rio abaixo não parava de olhar para nós. Como estava de costas, não me tinha apercebido de nada, motivo pelo qual duvidei que assim fosse, até porque os "brancos" nunca olham para uma mulher, ainda mais quando ela é negra. Rebatei que era apenas impressão e continuei a minha busca. Insiste ela que o fulano continuava a olhar e que até tinha-se afastado da pessoa que o acompanhava a fim de se abeirar da margem aonde nos encontrávamos. Remata ela que, na qualidade de única disponível do trio (ela é casada e a minha sobrinha tem seis anos), deveria tomar alguma  atitude a esse respeito. Feita tótó, que é o que sou quando se trata de abordar um homem, fiquei especada a olhar, enquanto o gajo passava por nós, deitando, volta e meia, uma olhadela furtiva na nossa direção. Descrente e hesitante, lá me atrevi a fazer-lhe um tchau. Foi quanto bastou para que ele voltasse atrás, não sem antes dizer qualquer coisa ao amigo, que lá continuou a remar rumo ao lago Hossegor.


Conversa vai conversa vem, eu caladinha que nem um rato, pois, além do complexo de me expressar em francês perante um pretendente nativo, mal conseguia acreditar que estava a ser vítima de uma tentativa de aproximação, in loco e da forma mais inesperada possível. Afinal, há anos que não conhecia ninguém na vida real, sem recurso a um dispositivo tecnológico. Dois dedos de prosa depois, pede-me ele que tire os óculos de sol, de modo a que pudesse ver-me os olhos. Como paga pela minha boa vontade recebo um "mais elle est belle" e um número de telefone, que foi a minha irmã que anotou, pois esta solteira aqui só conseguia esboçar sorrisos bobos e balbuciar umas quantas palavras desencontradas no tempo e na gramática.

E com razão! Nem nas minhas fantasias mais ousadas seria capaz de prever que o tipo dos meus sonhos - 182 cm, corpo todo trabalhado no fitness (mais tarde vim a saber que é instrutor de artes marciais), six pack visível a olho nu, peito depilado, olhos verdes, bronze no ponto e com um derrière digno de uma vénia - iria interessar-se por mim, ainda para mais sem que eu tenha feito absolutamente nada para que tal acontecesse.

Mal ele vira as costas, diz-me a minha mana: "Vês que é possível conhecer alguém? Ainda há esperança para ti!" Nesse dia, o Paris Saint-Germain (PSG) iria disputar uma final inédita da Champions (precisamente em Lisboa), pelo que era de se esperar que não teria novidades dele, pois sendo parisiense o mais provável é que estivesse a vibrar com o jogo. No dia seguinte, logo às nove da manhã, andava ele a bombardear a minha irmã com SMS, querendo saber se, de facto, existia interesse da minha parte e quando poderíamos encontrar-nos. Mal chega ela a casa, reclamando que ele não a tinha deixado concentrar-se no trabalho, mostra-me as mensagens, nas quais ele fazia todo o tipo de perguntas sobre a minha pessoa, tendo até proposto um rendez-vous (à trois) para esse mesmo dia. Uma vez lidas as mensagens que andaram a trocar durante a manhã, disse a ela: "Bolas, tenho 42 anos, sou mais do que capaz de conduzir as conversações daqui para a frente, sem necessidade de uma intermediária!". Dito isso, pego no telefone dela e mando um SMS ao rapaz dizendo-lhe que preferia que falasse diretamente comigo, através do WhatsApp. Acedeu de boa vontade, ainda que preocupado com a possibilidade de não o conseguir fazer, já que tinha tido problemas com a aplicação. Ficou combinado que, se até ao final do dia eu não obtivesse uma reação da sua parte, voltaria a contactar-me pelo telefone da minha irmã. Confidenciou-me depois que foi comprar um iPhone novo só para poder garantir que não teria problemas em trocar mensagens comigo.

O resto da estória fica para o próximo post, que já esgotei o tempo de antena, sem falar que trabalhar é preciso (ainda mais no dia em que a chefia regressou das férias).

Um beijo, um abraço e um coração!

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2 comentários

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De Kairós a 15.09.2020 às 09:52

Ou isto vai acabar nuns momentos tórridos, ou é um final triste para a história, e uma pessoa precisa de finais felizes com isto do covid, todos os bons momentos é para dar valor!!! :)
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De LegoLuna a 15.09.2020 às 09:53

Aguarda pelas cenas do próximo episódio 😉😊

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