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Crónicas, contos e confissões de uma solteira gira e bem resolvida que não cumpriu o papel para o qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar pulos de alegria? Provavelmente, nem uma coisa nem outra!


2820D09B-437A-4984-A503-3A29F747CE37.jpegViva!

A minha primeira escapadinha em terras lusas não correu como esperado. Infelizmente, é este o balanço destas miniférias, a pouco mais de 24 horas do seu término.

Para começar o tempo esteve uma merda, desculpa a expressão. O sol, esse só deu o ar da sua graça quando lhe apeteceu. Na maior parte dos dias, o céu esteve nublado, as temperaturas baixas para esta época do ano e a aragem deveras desagradável.

Numa região em que a ocupação dos forasteiros depende paliativamente da presença do astro rei, na ausência deste pouco mais há a fazer para passar o tempo. Pior ainda para aqueles que, como eu, não dispõem de meios de locomoção próprios. 

Chegar ao sítio mais concorrido da zona, o Lago Azul, só é possível com recurso a táxi, cuja tarifa quase atinge os valores do passe mensal urbano em Lisboa. Orgulho-me de não ser uma criatura forreta. Contudo, dispender mais do que me custou a viagem para cá só para ir conhecer uma praia fluvial, por melhor que ela seja, não foi coisa que me aliciou ao ponto de abrir a carteira. Quem sabe numa próxima encarnação eu não volto a esta terra para completar a minha caderneta de locais de interesse turístico.

Em relação aonde comer, a gerência do hotel recomendou-nos três restaurantes à altura dos seus hóspedes. Desses, descobri - depois de bater com o nariz na porta - que um encontra-se encerrado para férias e que outro estaria fechado durante dia e meio para descanso do pessoal. Assim, no feriado de Corpo de Deus apenas um deles estava de portas abertas, se bem que reservado para convívios de batizados ocorridos nesse dia. A nós visitantes restou-nos o consolo do take-away (vê lá tu a generosidade desta gente em recusar-se a deixar-nos à míngua). A aventura desse dia terminou comigo a comer uma pizza fria e queimada à beira da piscina, já que o hotel sequer disponibilizou uma sala apropriada.

Como não me seduzia a ideia de ficar enclausurada entre quatro paredes depois do jantar, andei a perguntar por aí até tomar conhecimento da existência de algumas festas populares nas imediações. Novo balde de água fria levei eu quando fiquei a saber que seria preciso percorrer vários quilómetros para chegar a essas localidades, todas a uma distância não aconselhável a transeuntes, ainda para mais à noite e por estradas nunca dantes pisadas. Daí que não tenha chegado a sentir, para lá da varanda do meu quarto, a brisa noturna da capital do ovo.

Como se já não estivesse arreliada o suficiente com tudo o que acabei de descrever ainda tive que aturar o assédio visual de um hóspede que, mesmo com a esposa ao lado, não parava de me comer com os olhos. Na piscina, passou horas a mirar-me com aquele olhar de tarado/predador sexual, que me deixou enojada. E a toupeira da mulher sequer se apercebia do que estava a acontecer. Tive ganas de a esbofetear, a ver se acordava para a vida e via o traste que tinha do lado.

Agora que já desdobinei sobre as coisas desagradáveis que marcaram estes últimos dias, vamos lá às boas, que nem tudo foi mau. Mesmo não sendo blogger de viagens, não posso deixar de dar nota positiva ao hotel que me acolheu, com pontuação máxima para o colchão. Tenho dormido lindamente, sem um único episódio de perturbação de sono. Aliás, desde que aqui cheguei, não tenho feito outra coisa que não seja dormir, ver televisão, ler e jogar no tablet.

Acredito que a maioria dos mortais ficaria agradada com este cenário de dolce fare niente. Ainda bem que não sou, não penso nem ajo como a maioria. O meu feitio exige bem mais do isso. Demasiado ócio já me está a dar cabo da paciência. Se soubesse que ia ser assim teria ficado em casa e gastado os 500 euros em outra coisa qualquer.

Outra coisa que me encantou na unidade hoteleira de 44 camas na qual me hospedei foi a sua política ecofriendly. Por toda a parte, deparei com avisos sobre as boas práticas do turismo sustentável. Se não fosse pelo pequeno-almoço, pobrezinho em termos de variedade e frutas, até lhe daria quatro asteriscos e meio.

Como não há bela sem senão... Apesar de todo o seu charme e todas as suas estrelas, o hotel não oferece serviço de restaurante. Logo os hóspedes veem-se impelidos a transpor os seus domínios para ir à caça de comida. "Come-se muito bem no Ribatejo", avisaram-me colegas de trabalho, conscientes da minha "esquisitice" gastronómica. De facto, não se come mal por estas bandas. Mas para quem pratica uma dieta alimentar essencialmente à base de peixe, as opções existentes pecam por défice. A oferta local é demasiado dependente do bovino e do suíno, do qual já não sou grande apreciadora. Nenhuma das opções de peixe com que me deparei eram oriundas do mar, mas sim de viveiros. Antes carne a peixe de aquário, bem mais pobre em termos nutricionais e de paladar. Assim, eu que como carne quando muito uma vez por mês, tenho passado os últimos quatro dias a enfiar proteína animal made in pasto pela goela abaixo. Mal volte à rotina é correr logo para a operação detox.

Também apreciei bastante a ida ao Centro Hípico da Quinta da Canastra, que culminou num passeio de charrete conduzido pelos alunos em estágio neste fim de semana. Estou aqui a ponderar se largo 60 balas para fazer um tour pela zona num 4x4. Tenho até amanhã, o último dia de férias, para decidir. Até lá vou rezar para que se faça sol neste fim de mundo, de modo que possa, ao menos, adquirir uma tonalidade de pele à altura da minha raça. 

Em suma, está minha primeira aventura "vá para fora cá dentro" ficou bastante aquém das expectativas, em grande parte pela minha inexperiência na matéria. Erro de principiante que pretendo não voltar a cometer. Fica a lição de nunca mais ir para lado nenhum sem primeiro assegurar o transporte necessário às atividades outdoor. A não ser que já vá consciente de ficar enclausurada do hotel durante toda a estada.

Até à próxima e continuação de bom fim de semana!

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4 comentários

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De Charneca em flor a 23.06.2019 às 12:28

Que pena que a tua aventura não correu como esperavas. Olha, eu tenho passado alguns dias por ano no interior do país e a experiência tem sido bastante agradável. A meteorologia não ajudou a que a tua estadia tivesse sido mais divertida, imagino. O facto de não teres um meio de locomoção próprio também não ajuda. Há paisagens bem bonitas por aí mas faz falta ter um carro para as deslocações. O pior é a pegada ecológica . Bom regresso e melhores dias virão. Sempre serve de aprendizagem.
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De Sara Sarowsky a 24.06.2019 às 11:41

Sim, serviu de lição.
E a maior delas é que se gasta muito mais do que ir para o estrangeiro.
Para a próxima tenho que planear com cuidado e estudar muito bem o local antes de me fazer à estrada.
Obrigada pelo teu comentário
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De Kairós a 24.06.2019 às 10:55

Realmente visitar sítios fora das grandes cidades sem meio de transporte próprio é uma aventura em si mesmo.

Mas ainda bem que conseguiste não te focar só no negativo. E que não te inibas de viajar mais por cá!

(Orçamento - fogo tanto! é difícil não comparar com "destinos" exóticos e ficar a pensar na relação custo, experiência).


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De Sara Sarowsky a 24.06.2019 às 11:39

Olá.
Confesso que não me vejo tão cedo a meter-me numa nova aventura nestes termos.
Talvez, depois de tirar a carta.
Foi uma experiência, e como tal lições foram tiradas.
Obrigada pelo teu comentário.

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