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Crónicas e confissões de uma rapariga gira e bem resolvida que (ainda) não cumpriu o papel para a qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar graças? Talvez nem uma coisa nem outra!


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Viva!

 

No Dia Internacional da Mulher, partilho contigo esta crónica da Paula Cosme Pinto, autora do A vida de saltos altos, sobre a razão porque esta efeméride faz todo o sentido, não obstante as (lamentáveis) posições em contrário.

 

Amanhã não se celebra o Dia Internacional da Mulher, portanto esqueçam as ofertas de flores e os convites para jantar fora. Amanhã assinala-se, sim, esta data, e fazê-lo é assumirmos coletivamente uma discriminação histórica que recai no sexo feminino. É aquele dia do ano em que não basta falar de direitos humanos, mas sim focarmo-nos numa parte específica da espécie humana que ainda é tratada com menos respeito, dignidade e igualdade. Se têm dúvidas quanto a isto, convido-vos a ler o que se segue.

 

Vou dar-vos uns quantos exemplos do último ano, que são um espelho claro do que se passa no mundo. Março de 2017: "As mulheres são mais fracas, mais pequenas e menos inteligentes" do que os homens e por isso "devem ganhar menos", palavras ditas por um deputado em pleno Parlamento Europeu, num debate sobre a demografia. Sim, em 2017. Junho: uma mulher dá à luz uma criança sem vida em El Salvador. A gravidez resultara de uma violação, mas ela não teve direito a abortar. O seu atacante não foi preso pelo crime de abuso sexual, mas ela recebeu uma sentença de 30 anos de prisão pelo aborto espontâneo, uma vez que não procurou ajuda médica imediata mal teve as primeiras contrações. Tinha, alegou a acusação, intenção de matar a criança. Setembro, interior do Brasil: uma miúda de treze anos foi brutalmente espancada pelo pai por ter tido relações sexuais pela primeira vez. Levado a tribunal, o homem foi absolvido pelo juiz, que considerou que tudo não passou de um mero "exercício do direito de correção" do progenitor sendo ela menina. Estão a perceber a ideia?

 

Mas há mais. Outubro, Nova Zelândia: uma mulher é eleita primeira-ministra e, por ser mulher, a pergunta é repetida pelos seus pares e pela imprensa exaustivamente: "vai ser capaz de desempenhar as suas funções e ser mãe?". No mesmo mês, em Portugal: "O adultério da mulher é um atentado à honra do homem", lê-se num acórdão proferido pelo Tribunal da Relação do Porto, referente a um caso de violência doméstica. E nos Estados Unidos: duas grandes publicações revelam uma dúzia de casos de assédio e abuso sexual perpetuados por um gigante de Hollywwod. Foi só a ponta do icebergue para um movimento global de fim do silêncio das inúmeras vítimas de situações semelhantes, mundo fora. Novembro: Judith Butler, famosa filósofa cujo trabalho se debruça nas questões de género, dá uma conferência em São Paulo e encontra uma multidão à porta com cartazes de ódio e uma boneca com a sua cara que foi queimada entre gritos de repúdio às suas ideias. "Queimem a bruxa", ouviu-se por lá. Dezembro: relatos de ONG's no terreno revelam que as mulheres da minoria rohingya estão a ser continuamente violadas e torturadas por soldados birmaneses. Dois meses depois, sabe-se que funcionários humanitários, que operam em nome das Nações Unidas e de diversas organizações internacionais de caridade, obrigaram mulheres e meninas sírias a trocar favores sexuais por ajuda humanitária, como comida ou boleias. Nojo. Fevereiro 2018: mais de 30 mulheres iranianas são presas por ousarem retirar o hijab em público e ficarem com os cabelos à solta. O que lhes está a acontecer às mãos da polícia ninguém sabe. Há umas semanas, por cá: uma mulher é morta pelo marido, 37 dias depois de ter apresentado queixa contra ele. A situação não foi considerada de risco e os mecanismos existentes nem sequer foram acionados. Infelizmente, podia estar aqui o dia todo a debitar casos destes.

 

Bom, mas se estes exemplos, vindos de zonas tão diferentes do mundo, mesmo assim não chegam para perceberem a necessidade de ainda termos de falar especificamente de direitos das mulheres, então vamos a números: sabiam que 1 em cada 3 mulheres em todo o mundo é vítima de agressões físicas, psicológicas e sexuais, pelo simples facto de ser mulher? Ou que, todos os anos, 15 milhões de meninas e adolescentes são obrigadas a casar, o que dá uma média de 28 meninas por minuto? E têm noção de todos os anos, mais de 5 mil mulheres e raparigas são mortas nos chamados crimes de honra, regra geral cometidos pelos pais, irmãos ou maridos? Ou que 8 mil raparigas estão em risco de sofrer mutilação genital diariamente? Feitas as contas, são três milhões de meninas por ano, leram bem. Por cá, foram registados 80 casos entre 2016 e 2017 . Sabem quantas mulheres da União Europeia viveram situações de assédio sexual a partir dos 15 anos? À volta de 83 milhões, ou seja, qualquer coisa como mais de 50% da população feminina a residir nos 28 Estados-Membros. No que toca ao tráfico humano, sabiam que mais de 70% das vítimas são mulheres e meninas, sendo que 3 em cada 4 são depois alvo de exploração sexual? E que feitas a contas às mulheres assassinadas no mundo, mais de metade foram mortas por homens com quem mantinham relações de intimidade?

 

Por tudo isto e muito mais, o feminismo – enquanto ideologia que defende a igualdade de direitos, oportunidades e dignidade entre pessoas, independentemente do género – é totalmente necessário e pertinente. Se durante séculos acreditámos e aceitámos que a discriminação que recai sobre as mulheres era só parte da norma, hoje já não é assim. Porque é injusto, tão simples quanto isto. Não se trata de inverter as regras do jogo, trata-se apenas de as equilibrar. Cada vez que repito isto, lembro-me do cartaz de uma senhora com idade para ser minha avó, na grande Marcha das Mulheres: "Não acredito que ainda tenho de andar a lutar por esta merda". Tenho dito!

 

Depois disto, só me resta desejar-nos um feliz dia e muita reflexão sobre a real importância desta data.

 

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