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Crónicas, contos e confissões de uma solteira gira e bem resolvida que ainda não cumpriu o papel para o qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar pulos de alegria? Provavelmente, nem uma coisa nem outra!


hands-1222866_1920.jpgOra viva!

Hoje quero partilhar contigo a primeira parte de um conto, cuja redação iniciei em abril, em pleno confinamento geral da população portuguesa. Com ele pretendia eu concorrer ao Prémio Contos da Quarentena, promovido pela Livraria Lello. Dado que não cheguei a terminá-lo a tempo, eis-me aqui a dar-lhe alguma utilidade, não vá perder-se no meio das dezenas de rascunhos que tenho espalhado pela rede. Espero que gostes.

Era uma vez uma linda criatura chamada Humanidade. Filha do Sol e da Terra, afilhada predileta da Lua e amiga íntima das Constelações, foi criada com todo o esmero e dedicação. Airosa como nenhuma outra, a ela não faltava beleza, saúde, educação, conhecimento, luxo, divertimento, progresso...

Bastava querer que tudo conspirava a seu favor... t
inha tudo o que quisesse, ainda que não quisesse tudo o que tinha. O que lhe interessava era ter, possuir, comprar, adquirir, acumular... mais e mais... sem atentar-se às possíveis consequências de todo esse consumismo desenfreado.

Incapaz de estar quieta, a vida era uma eterna paródia, um espetáculo que tinha de continuar não importasse como... Gastava rios de dinheiro em festas, festivais, concertos, espetáculos, jantares...

Viajava a toda a hora, por toda a parte, saltitando de continente em continente, de país em país, de cidade em cidade... pelos motivos mais surpreendentes. De avião, de jato, de navio cruzeiro, de carro, de autocarro, de moto... o que lhe permitisse não estar parada, não vá a rotina acomodar-se.

A
depta do desporto, apadrinhava todo o tipo de competição, sobretudo as transnacionais, por lhe lembrarem que a sua existência não conhecia fronteiras, barreiras ou limitações. 

O verde, no início, e o cinza, no final, eram as suas cores favoritas.

Vaidosa compulsiva, mostrava-se incapaz em resistir ao charme industrial, em especial aquele que emanava do vestuário, do calçado, do automóvel, da tecnologia e do entretenimento, ainda que isso implicasse recorrer ao crédito. Estava (cada vez mais) endividada, sabia-o, mas o importante era a aparência e um padrão de vida digno de cobiça.

A sua existência só tinha valor se pudesse exibir-se. Por isso inventou as redes sociais, uma espécie de espelho mágico que lhe dizia, sempre que quisesse ouvir, que era a mais bela de todas. Como tal, era cada vez maior o tempo que lhes dedicava... afinal, além de não exigirem esforço acrescido, dedicavam-lhe atenção constante e... absoluta.

Quanto mais s
acrificava o seu tempo, a sua inteligência, a sua socialização e a sua essência, mais realizada demonstrava estar...

Com o passar do tempo foi-se assumindo cada vez mais mimada, caprichosa, vaidosa, egoísta e fútil... desafiando os princípios mais básicos de existência e da convivência. A ela tudo lhe parecia descartável: as pessoas, os relacionamentos, os sentimentos, os laços familiares, os objetos, os serviçais... 

Era-lhe mais caro o trabalho do que a família, o sexo do que o amor, o chat do que a conversa, os amigos do que os parentes, a rua do que o próprio lar, os outros do que ela mesma, o virtual do que o real, o superficial do que o essencial...

Desfrutava do hoje como se não houvesse amanhã, vivia o presente como se o futuro pouco importasse.

Quando jovem, só queria estar em comunhão com o que a rodeava. Com o passar do tempo, foi deixando pelo caminho o altruísmo e a sensibilidade. O materialismo fazia-se cada vez mais presente na sua atuação. A sua ideia de abundância tornou-se indissociável da prosperidade económica e financeira. Tudo o resto era de importância secundária, considerava ela...

Encontrava magia nas coisas e não nas pessoas...

Essa existência desregrada e desenfreada traria consequências sérias, alertavam-na aqueles que lhe tinham verdadeira estima... Focada, unica e exclusivamente, em alimentar os prazeres do corpo, não era do seu interesse inteirar-se da real gravidade do mal de que padecia. Fazia questão de ignorar os sintomas cada vez mais flagrantes...

De tanto brincar aos deuses acabou por esquecer que não passava de uma mera mortal, que, a uma velocidade estonteante, acumulava pecados atrás de pecados. Achava a Humanidade que a imunidade era o garante para a impunidade.

Quanta ingenuidade, quanta ignorância, quanta arrogância... mal sabia ela o que lhe estava reservado para o ano de 2020.

Continua...

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