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Crónicas e confissões de uma rapariga gira e bem resolvida que (ainda) não cumpriu o papel para a qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar graças? Talvez nem uma coisa nem outra!


06
Jul16

Somos todos idiotas

por LegoLuna

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Terminei há dias uma colaboração de trabalho com uma ordem profissional - com muito prestígio, diga-se de passagem - e na hora da despedida (o contrato era temporário) ofereceram-me uma bela orquídea num vaso e um livro do Sensivelmente Idiota, cognome pelo qual responde Diogo Faro, entitulado Somos Todos Idiotas.

 

Até dias antes nunca tinha ouvido falar deste humorista, mas perante tamanho entusiasmo ao tomar contacto com duas crónicas dele - que na altura não resisti a partilhar com as colegas de sala - uma delas (que querida!)  teve a feliz ideia de sugerir que me oferecessem esse livro como souvenir pelos (bons) serviços prestados à casa.

 

Ainda não começei a deliciar-me com a escrita dele, a meu ver única, pois são raros os autores que conseguem através da escrita fazer-me rir a bandeiras despregadas (tenho que acabar primeiro o Rendida), mas deixo-te com alguns trechos da crónica Um dia de praia com betos ou mitras? Venha o diabo e escolha!, publicado na revista Visão e que relata um dia de praia de uma família de "betos" e de uma família de "mitras". Prepara-te que o humor dele é negro e mordaz, porém genial e verdadeiramente divertido.

 

Um dia de praia, numa família de betos

Para começar, o beto não é um veranista que vá a qualquer praia. Vai apenas a praias selecionadas, quais artigos gourmet de uma mercearia gourmet de um bairro gourmet.

Mas como selecionar estas praias? Simples. Há muitas que já vêm de tradição. As famílias com mais de 17 apelidos, todos eles separados por hífenes, há séculos que para lá vão.

Depois é também preciso garantir que a plebe não vai para estas praias, porque já se sabe que pobres é pior que pombos cheios de doenças.

As ninhadas de betos são sempre muito grandes e, mesmo que muitas vezes saia uma cria com trissomia 21 por causa da consanguinidade (os betos têm muito a mania de se comerem entre primos direitos), é muito raro as mães afogarem-nos à nascença.

Claro que os seus trabalhos como engenheiro, advogado, gestor e agrónoma estão assegurados à nascença mas, ainda assim, é preciso começar já a praticar. A última é que virá a entrar no Chapitô e acabará deserdada.

E sempre com aquele ar de quem não dá muita importância, mas sem conseguir disfarçar bem o orgulho parental, começa o rol de "Ai, o meu Fonfas com 3 anos já fala mandarim, toca piano e dá aulas de catequese", "Ai, a minha Coca de 16 anos já fuma, já sabe sacar gajos no Main com apelidos decentes e já sabe que antes do casamento só vale anal porque não é pecado."

 

Um dia de praia, numa família de mitras

O mitra é uma espécie completamente diferente do beto. O mitra não vai a qualquer praia, essencialmente porque não pode e não por falta de vontade, e depois acaba por mascarar a inveja que tem dos betos com um falso orgulho nas praias que frequenta.

Assim sendo, a seleção de praias fica limitada àquelas com acesso por transportes públicos ou por carro próprio mas sem estradas de terra batida para não estragar os para-choques dos carros rebaixados. Portanto, ficam a sobrar Carcavelos, aquelas do início da Costa da Caparica, aquela do jardim do Torel no meio de Lisboa e algumas caixas de areia dos jardins infantis.

O dia começa cedo. A mãe Sheila vai acordar o Rúben Tiago, o Wilson Gerson, o Fábio Mikael, a Soraya Vanessa e a Rute Miriam. As ninhadas de mitras são sempre muito grandes porque como orgulhosos desinformados nem sabem o que é um preservativo.

Portanto, começou aos berros para toda a gente no Minipreço achar que ela estava a educar os miúdos e depois acabou por ter de ser ela a roubar os pacotes e mais uns iogurtes com aroma a labrego. Se queres as coisas bem feitas, fá-las tu. Já dizia o Al Capone, ou o Escobar, ou o Ricardo Salgado. Já não sei bem quem disse isso mas foi um bandido do género.

A mãe aproveita esta ocasião para voltar a não pôr protetor no Fábio Mikael. "Pode ser que o puto apanhe um "cancarozinho" na pele e a gente consiga mais um subsídio qualquer do Estado" – pensa ela.

Os vários mitras amigos ali reunidos exibem as suas crias com um orgulho visceral. "Pá, este cabrãozinho aqui já bate nos colegas todos da turma. Mas também era o que faltava não bater, tem 10 anos e ainda está na primeira classe", "E a minha mai nova? F*da-se c'orgulho! 14 aninhos e já está grávida. Sai mesmo à mãe!" e tantas outras semelhantes proezas embandeiradas em arco (agora é que lixei os mitras que estavam a ler esta crónica porque eles não sabem o que quer dizer esta expressão).

 

Este é o tipo de Idiota com quem se recomenda o convívio, mais não seja para dar umas valentes gargalhadas. Eu, para além disso, ainda fiquei a saber que, em matéria de praia, não passo de uma "mitra", já que só vou àquelas com acesso por transportes públicos. Ah ah ah ah.

 

Boa leitura e melhores risadas ainda.

 

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1 comentário

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De LegoLuna a 06.07.2016 às 13:43

Juro que não fazia ideia da "quentura" do tema quando escrevi este post. Acabo de ler que o autor está envolto numa acesa polémica, precisamente por causa do conteúdo das crónicas que aqui mencionei. Para entenderes melhor do que falo, espreita só este link http://lifestyle.publico.pt/artigos/362873_leitores-ofendidos-interrompem-apresentacao-do-livro-de-diogo-faro.

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