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Crónicas e confissões de uma rapariga gira e bem resolvida que (ainda) não cumpriu o papel para a qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar graças? Talvez nem uma coisa nem outra!


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Ora viva!

 

Pelos vistos o sonho de morar sozinha na urbe alfacinha, assunto abordado no post Viver sozinho: sonho ou pesadelo?, não é exclusividade minha. Pelo contrário. O que não faltam são novas e testemunhos daqueles que, à causa da insuficiência económica, não conseguem custear uma residência na área metropolitana e áreas adjacentes.

 

Este relato da jornalista Raquel Costa, publicado esta quarta-feira no cidades online, é um retrato falado do drama daqueles que não têm a sorte de fazer parte das camadas panorâmicas da pirâmide socioeconómica, vulgo abastados ou desafogados financeiros.

 

"Por motivos vários vejo-me, aos 34 anos, nesta caricata situação: tenho um emprego estável, com contrato, mas não tenho rendimentos suficientes para viver sozinha em Lisboa ou arredores.

O boom do turismo na capital provocou uma inflação absurda no preço das rendas, o que torna praticamente impossível o arrendamento de uma casa a quem tenha um rendimento abaixo dos 1000 euros.

Há uns quatro, cinco anos, houve ligeiros sinais de adaptação do mercado imobiliário a uma nova realidade. Casas que estavam “empatadas” há vários anos começaram a entrar no mercado do arrendamento, permitindo a pessoas como eu poderem viver em habitações condignas.

Mas esse momento rapidamente desapareceu, dando lugar à venda (e compra... porque os bancos estão de novo aí, em força, a emprestar dinheiro a quem quiser) ou então ao arrendamento de curta duração (os airbnb desta vida).

Então o cenário atual é o seguinte: queres alugar casa? Ou tens amigos/conhecidos que te fazem o favor de alugar um T1 /T0 abaixo do valor de mercado ou estás lixado. Descontada esta opção, restam as filas para as visitas a imóveis das carteiras das imobiliárias. E é aí que as coisas se tornam absurdas.

Dei por mim a não saber se ria se chorava quando, às três da tarde, me encontrei na fila para ver um T1 num subúrbio de Lisboa. Para ver apenas, sublinho, um T1 a 380 euros, situado num prédio que parecia que tinha sido atingido por um míssil nuclear... com todas as características simpáticas e elevada segurança do dito subúrbio.

Ponderei, durante alguns minutos, ainda dar uma hipótese, sabendo de antemão a ginástica orçamental a que aquela renda me obrigaria. Ponderei desvalorizar o aspecto pouco simpático da vizinhança, ponderei pedir dinheiro emprestado a amigos para pagar os 3 meses (!) de caução que estes contratos hercúleos exigem atualmente.

Por fim, vim-me embora, frustrada e com alguma vergonha. “Onde é que eu falhei na minha vida?”.

A verdade, nua e crua, é esta. Para se ser independente, neste momento, em Lisboa, é preciso ganhar, no mínimo, 1500 euros. A outra opção é dividir casa, lotaria essa que pode resultar numa verdadeira batalha campal psicológica.

Vejo-me confrontada com este triste e misógino pensamento: estivesse eu casada ou em união de facto com alguém, já não teria este problema.

Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado (trocar o 'a' pelo 'o')."

 

Verdade seja dita que este texto não poderia ser mais revelador da realidade atual – para mal dos pecados daqueles que, como eu, não querem ficar longe do burburinho da cidade. A esses só restam estas boas opções: torcer para que este cenário se reverta (o que não me parece muito provável), partilhar o lar com outros (por vezes tem-se sorte), apostar todas as fichas no euromilhões (nunca se sabe...), rezar para receber uma herança qualquer (milagres acontecem), trabalhar que nem um camelo para conseguir uns trocos extras no final do mês (deixa-se é de ter tempo para viver) ou… tornar-se um suburbano inconformado (no comment).

 

No meu caso optei pela segunda e posso dizer que, tirando uma coisa ou outra, não tenho muito do que me queixar. Afinal, há que louvar o que se tem ao invés de lamentar o que (ainda) falta ter. Tenho dito!

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