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Crónicas e confissões de uma rapariga gira e bem resolvida que (ainda) não cumpriu o papel para a qual foi formatada: casar e procriar. Caso para cortar os pulsos ou dar graças? Talvez nem uma coisa nem outra!


10
Jan17

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 Ora viva!

 

Na lavandaria, à espera que seque a minha roupa, vou vagueando pela rede à cata de novidades, na firme esperança de que uma delas sirva de inspiração à crónica do dia. E não é que encontrei um artigo digno de ser partilhado? Nem de propósito, este dá sequência a um dos pontos abordados no post de ontem: sessões de abraçoterapia (estou em crer que este termo não existe, mas inventar é comigo mesma).

 

O que escreveu esta bibliotecária americana é caso para nos por a pensar. Uma das minhas resoluções para este novo ano passa muito por isso: mais contacto com as pessoas, mais convívio, mais calor humano. Só espero não ter que chegar aos 44 anos – a idade dela – para dar um passo no sentido de sanar a questão. Ora lê o artigo (um pouco extenso, vou já avisando) publicado pelo DN este domingo.

 

"Só uma vez estive profundamente apaixonada. As minhas outras relações foram mais um género de tréguas na solidão. Finjo durante meses ou anos que não preciso de um homem para ser feliz. Mas ser presunçosamente solteira será muito diferente de ser presunçosamente casada?

 

Participar numa festa de abraços foi uma das minhas resoluções de Ano Novo para superar medos em 2016. As minhas outras resoluções, e eu tinha uma lista longa, incluíam encontros rápidos e fazer uma caminhada com um clube de montanhismo.

 

Nunca cheguei a cumprir as dos encontros rápidos ou a da caminhada, mas em agosto já tinha conseguido reunir a coragem suficiente para me inscrever numa festa de abraços. E foi assim que dei comigo deitada num colchão de espuma no chão de um desconhecido com a cabeça no ombro de um homem estranho. Estranho no sentido em que eu não o conhecia, é claro, mas estranho também por ele ser tão magro e ossudo que abraçá-lo não dava conforto algum.

 

De seguida, uma jovem instalou-se do outro lado e perguntou se poderia dar-me a mão. "OK", respondi baixinho. Esticámos os braços e demos as mãos por cima do peito do homem. Senti-me rígida, tensa, aterrorizada. Um mar de colchões de espuma, mantas e animais de peluche cobria toda a área de chão daquela sala. Mesmo assim, eu sentia a pressão implacável do meu osso ilíaco contra a madeira. Quanto tempo teria de me manter assim? Qual é o tempo aceitável para parecer aberta à experiência, preservando também a minha dignidade?

 

Tinha passado demasiado tempo desde os meus últimos momentos de intimidade com alguém. Aos 44 anos, começava a ficar preocupada com a ideia de me estar a tornar um pouco selvagem. Os meus pais, depois de 46 anos de casamento, continuavam a ter relações sexuais - um sexo pós-menopausa, geriátrico talvez, mas sexo, apesar de tudo. Enquanto isso, eu tinha despendido 25 dólares (23 euros) para abraçar um tipo magricelas.

 

Durante as apresentações, a nossa anfitriã havia dito: "Comecei a organizar festas de abraços há dois anos, porque a minha reserva de abraços estava muito em baixo, mas sabia que não estava pronta para namorar".

 

A sua reserva de abraços? Enquanto percorríamos os presentes na sala, pelo menos duas pessoas disseram que os seus terapeutas lhes indicaram que tentassem aquilo e uma mulher abraçava um Garfield de tamanho natural, balançando-se ligeiramente e murmurando coisas sobre ter medo das pessoas.

 

Anos antes, quando tinha um namorado e um fornecimento constante de abraços, vi um anúncio para a terapia dos abraços e ri-me. Que triste, pensei. E, no entanto, ali estava eu, em parte por curiosidade, em parte para me desafiar a ficar aberta a coisas novas e assustadoras e em parte porque esperava encontrar alguém.

 

Sou uma mulher independente e profissional que vive numa cidade progressista, mas passam-se dias e dias em que não toco noutro ser humano. Nunca pensei que estaria aqui, neste lugar, neste momento da minha vida. O medo que sinto de que seja de algum modo defeituosa tornou-se mais difícil de afastar de mim a cada ano que passa.

 

Um sino tocou. "OK, passaram 20 minutos", disse a nossa anfitriã, dando-nos oportunidade de nos reorganizarmos e abraçarmos pessoas diferentes. Sem perder tempo dirigi-me à casa de banho, o único espaço nesta pequena casa onde poderia estar sozinha. Quando reapareci, todos já tinham encontrado parceiro. Havia um emaranhado de corpos no meio da sala. Fiquei na cozinha a contemplar os lanches: biscoitos secos e legumes com molho de salada. Infelizmente, nada de álcool. Isso poderia tornar as coisas sexuais, tinha explicado a nossa anfitriã. Festas de abraços não têm a ver com sexo, mas sim com o estabelecer limites e ligações. Mas mesmo com as luzes apagadas, toda a instalação parecia mais clínica do que conectiva, como se estivéssemos todos inscritos em Introdução à Interação Humana.

 

Não conseguia deixar de pensar em macacos bebés. Na faculdade, fiz uma introdução ao curso de psicologia, onde estudámos as experiências de Harry Harlow com macacos e como os macacos bebés preferiam uma mãe de pano a uma feita de arame e madeira, mesmo quando era a mãe de arame a fornecedora do alimento. Acontece que os primatas preferem uma mãe falsa fofinha a uma mãe falsa que realmente os mantenha vivos.

 

Talvez isso explique a minha loucura e os meus picos de pressão arterial recentes. Eu tinha-os atribuído a algum tipo de crise de meia-idade, mas talvez sejam o resultado de demasiados anos com muito pouco contacto e carinho. Precisava de sair para o mundo, mas quanto mais a evitava, mais assustadora a perspetiva se tornava. Eu tinha menos medo de me tornar correspondente de guerra do que de abrir uma conta no Tinder.

 

No entanto, de alguma forma consegui reunir a coragem suficiente para fazer isto. "Devemos abraçar-nos?", perguntou bruscamente um sujeito que tinha chegado tarde. "Hum, claro", respondi, já que éramos as únicas pessoas que não se tocavam. "Que tal se nos encaixarmos?" perguntou ele. "Você quer ficar por fora ou por dentro?" "Eu fico por fora", respondi, querendo controlar a nossa proximidade, especialmente nas nossas zonas baixas. Mas ele também não parecia querer muitas proximidades, deixando pelo menos seis ou sete centímetros entre nós. Eu passei o meu braço por cima dele enquanto ficávamos ali deitados, rígidos como tábuas.

 

Então ele começou a falar nervosamente. "Pois foi, eu vi aqueles anúncios de pessoas que se dispunham a abraçar outras em troca de pagamento e pareceu-me dinheiro muito fácil. Comecei a pensar que poderia fazer isso em vez do que estou a fazer agora. Eu trabalho num hospital, mas a minha chefe odeia-me e é estúpida. De qualquer forma, eu disse ao meu terapeuta que vinha aqui esta noite, e ele disse que era demasiado cedo."

 

Demasiado cedo para quê? Não me atrevi a perguntar. Ele continuou a tagarelar até que a anfitriã assinalou novamente o fim do tempo. Parece uma fraqueza admitir que estou tão sozinha. É suposto eu ser uma pioneira, uma feminista corajosa e solteira, sem medo de viver a vida sozinha. Exceto quando é sábado à noite e estou a jantar a observar pela minha janela a sala de jantar da família do outro lado da rua.

 

Eu vejo os primatas a interagirem através das suas portas de vidro de correr. O pai beija a mãe no pescoço enquanto ela lava a loiça. A filha nº 1 senta-se ao colo do pai a ler. A filha nº 2 abraça o pai pelas costas. Será que eles me observam? Será que se perguntam: Por que é que o musaranho do ártico se está a alimentar novamente?

 

Não é que eu não tenha tido oportunidades. Estive noiva por duas vezes (a primeira vez foi o homem que acabou o noivado, a segunda fui eu). Mas só uma vez estive profundamente apaixonada. As minhas outras relações foram mais um género de tréguas na solidão. Eu finjo durante meses ou anos que não preciso de um homem para ser feliz. Mas ser presunçosamente solteira será muito diferente de ser presunçosamente casada?

 

"Quer vir e abraçar-se a nós?", perguntou uma mulher que tinha estado sensualmente abraçada ao mesmo homem durante toda a noite. Ela teria talvez mais 10 ou 15 anos do que eu, assim como o homem de cabelos grisalhos que estava com ela. Eu estava pronta para partir, mas deitei-me de costas entre eles. Ele colocou a cabeça no meu peito e o braço por cima de mim. Ela começou a acariciar o meu antebraço tal como a minha mãe costumava fazer, as suas unhas suaves contra a minha pele. Achei que ia começar a chorar.

 

Muitos dos meus amigos solteiros parecem confortáveis, até felizes, sozinhos. "Sou demasiado evoluída para um relacionamento", disse-me uma amiga recentemente com uma garrafa de vinho entre nós. Eu assenti, fingindo entender. Mudei-me para Seattle há 11 anos em busca de amor. No Alabama, parecia que toda a gente estava casada aos 30, mas Seattle estava cheia de trintões solteiros. Todas as festas que eu frequentava ofereciam grandes possibilidades. E, no entanto, a maioria era estridentemente solteira, satisfeita com as suas vidas. Subindo montanhas. Remando através dos oceanos. Quanto menos bagagem, melhor.

 

A mulher ao lado de quem eu me tinha deitado disse: "Sabíamos que a queríamos abraçar quando você se apresentou e disse como estava assustada com tudo isto". As mãos dela continuavam a acariciar suavemente o meu braço. "Você foi tão honesta e corajosa."

Quando perguntei se eles já se conheciam antes daquela noite, ela riu-se e contou-me que se tinham conhecido há seis meses noutra festa de abraços. Uma parte de mim esperava encontrar o amor ali, mas enquanto percorríamos a sala nas apresentações, comecei a perceber que eu era possivelmente a pessoa mais aterrorizada ali, talvez até mais do que a mulher que abraçava o Garfield. Ao longo dos anos, quase sem perceber, tinha-me tornado menos disponível, menos acessível, entrincheirando o meu coração pedra a pedra.

 

A mulher continuou a acariciar o meu braço com uma mão, e então, passando o outro braço por cima do meu peito deu a mão ao seu homem. Parecíamos estar à beira do território da orgia. A verdade é que em vez de entrar em pânico senti-me a relaxar. E enquanto os pontos em que os nossos corpos se tocavam começavam a aquecer, eu comecei a sentir-me fisicamente conectada com outras pessoas pela primeira vez desde há muito tempo. Porque é que eu estava tão assustada com isto? Porque é que alguém fica assustado com isto?

 

Existem agora mais adultos solteiros do que casados neste país, e o número dos solteiros que vivem sozinhos aumentou para um quarto de todos os lares. Não deve ser necessário fazer pesquisa científica com macacos para entender que todos nós precisamos, talvez acima de tudo, de conforto físico neste mundo. A minha resolução para 2017: procurá-lo."

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